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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lembram da Mesa Palhaço e poder?

pois é ainda tá dando o que falar: leiam o post anterior e essa resposta do Márcio Libar.


Meu Caro

Lendo seu depoimento, tive varias sensações, pois também tenho meus questionamentos em relação aos rumos que os “Anjos do Picadeiro” têm tomado e da proporção que essa espécie de “movimento dos palhaços” tem adquirido no Brasil nos últimos anos.

Porém, como você não teve a virilidade de se apresentar, de dizer quem você é e o que faz, eu não sei se estou respondendo a um comunista de 70 anos, ou a um jovem rebelde e ressentido que ainda procura culpados para justificar seus fracassos e frustrações pessoais.

Como você, ao invés de afirmar seu trabalho e ser a FAVOR das coisas que você acredita, preferiu ser CONTRA o outro, inclusive se referindo a mim de forma pouco gentil, vou aqui chamá-lo de “intelectualóide esquerdopata”, pois quando não conheço a pessoa prefiro tratá-la pelo padrão de comportamento.

Meu caro, pela maneira com que você se referiu a mim como alguém que vive sob as asas do capital, reacionário, com sede de poder e vendedor de camisas, é possível que saiba muito pouco sobre mim e sobre meu trabalho. Cabe a mim então, atualizá-lo.

Tentarei responder-lhe como artista, pois esta é a forma que escolhi para me manifestar nesse mundo, e sabe por quê? Porque o único território realmente LIVRE que conheço é o espaço da minha criação que a arte possibilita. Por isso posso transitar tranquilamente pelo Stand up ao palhaço Cuti-Cuti, pela cena teatral, cinema, TV e até pela literatura. E que tirano haveria de me impedir, você?


Não, meu caro esquerdopata, eu não vendo camisas, porque não as produzo, o que eu de fato produzo, é conhecimento. Este sim é o único capital que tem me sustentado até hoje. Minha oficina A Nobre Arte do Palhaço já foi feita por mais de duas mil pessoas, de favelados a empresários do mundo coorporativo, de artistas anônimos a astros de cinema e TV.

Meu espetáculo O Pregoeiro já foi visto por mais de 20 mil espectadores, seja nas ruas, seja nas lonas, praças ou em algumas temporadas em teatro. Meu livro A Nobre Arte do Palhaço, (edição do autor) vendeu duas mil cópias em várias partes do Brasil e antes que você diga que teve patrocínio eu digo que a PETROBRAS viabilizou os primeiros mil exemplares, os outros foram investimentos diretos meus. Já estou partindo para a terceira tiragem, mas me falta grana.

O meu Ateliê do Riso, criado há um ano, em nove meses realizou três cursos por onde passaram 60 atores em estágio profissional e de onde saíram cerca de vinte e cinco números de qualidade e de diversos gêneros de humor, que hoje já se apresentam em vários lugares da cidade.

Todos esses resultados eu cobro diretamente do beneficiário e não me mantenho sob as asas de nenhum patrocínio. Esse sim é meu poder mais legítimo, o poder da sustentabilidade, baseada única e exclusivamente na excelência que meu trabalho adquiriu ao longo destes vinte e três anos de carreira.

Criei o Clube de Teatro Teatro Gláucio Gill, que continuará no Teatro do Planetário da Gávea (espaço conquistado através de edital público), não sou remunerado como gestor, mas esse projeto abriu espaço e oportunidade para centenas de jovens artistas.

Fui Coordenador de Teatro de Rua e Circo durante seis anos e entreguei o cargo assim que percebi que não teria verbas para trabalhar. Abri mão de um soldo de três mil e quinhentos reais, sabe por quê? Para me manter livre, parceiro.

Digo isso por entender que o único território ao qual a arte deve obedecer, é o território da liberdade. Pois, a arte se alimenta das contradições humanas e não exige a coerência dos discursos políticos e pedagógicos. As classificações e definições, eu deixo para os cientistas.

Minha visão de mundo me faz crer que uma arte “atrelada”, ou seja, por exemplo: uma arte de camponês, uma arte de favelado, arte de gênero feminino ou masculino, arte GLBT, corre um sério risco de ser menor. Não pela falta de técnica ou tecnologia, nem pela falta de incentivos e apoios do Estado, empresas ou da mídia. Mas pelo simples fato da arte, nesse caso, estar a serviço de uma VERDADE ÚNICA e ABSOLUTA. Desta forma, o artista abre mão da liberdade de atirar em quem quiser, até da liberdade de poder atirar em si mesmo.

Para concluir, meu caro intelectualóide esquerdopata, liberdade é algo que talvez você não conheça tão bem o quanto você imagina. Seu texto é preconceituoso, magoado e ressentido. Tem como único papel policiar, acusar, julgar e condenar artistas sem direito à defesa, ao melhor estilo tirânico e fascista. Fez tudo isso em nome de uma suposta democracia sem se dar conta da própria arbitrariedade.

Não sei se te conheço pessoalmente, mas pessoas como você eu conheço aos montes. Pessoas que julgam projetos como o da CUFA, do Afroreggae e do Crescer e Viver, trabalhos vendidos pro sistema. Que MV Bill é vendido porque Falcão Meninos do tráfico passou no FANTÁSTICO, que acham filmes como Tropa de Elite e Cidade de Deus, coisa de burgueses brancos, que o presidente Barack Obama é um preto de alma branca, e que o governo Lula é neoliberal.

Afinal de contas, você ainda fala de mal dos meios de comunicação de massa em plena época de internet. Ou será que você também é contra esse fato? Caso você não abomine a internet, sugiro que você busque duas coisas no Google: “Novo Clube de Paris” e Baderna TAZ (zonas autônomas temporárias) para que você possa entender que eu acredito menos nas revoluções e mais nas insurreições e levantes. Pois as revoluções criam novos estados, leis e tiranos. Eu sou livre e nesse caso, prefiro ser “ladrão Pirata”, do que “traficante dono de firma”.

O que você não percebe meu caro, é que para falar bem da feijoada, não precisa falar mal da lasanha, certo? Esse tipo de posição reativa contribui muito pouco para a reflexão, para a produção de conhecimento. É pouco inteligente e no mínimo deseducado e deselegante. Gentileza e respeito pelas diferenças, o capital intangível. Este sim, este sim, está, para mim, acima de qualquer capital material.

Mas isso é apenas a introdução, se estiver interessado em avançar, pesquise e leia o que te sugeri e pode mandar que aqui ainda tem muita munição pra gastar. Pois eu sou livre e não negocio minha liberdade com nenhum patife. Ainda que este patife seja eu mesmo.

@xé
Marcio Libar

Lembram da Mesa Palhaço e poder?

Pois é: ainda está dando o que falar.

Dia desses recebemos um comentário bem apimentado retomando a discussão, que reproduzo aqui.
Por o autor, que se assina Véu, ter mencionado diretamente algumas pessoas presentes naquela mesa, de 2006, os próximos posts serão de resposta ao comentário de Véu.
Acompanhem e fiquem à vontade para entrar na discussão!

Véu deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Mesa de debates: Palhaço e poder":

Vamos ver se vai ser postada...pq se fala muito em liberdade, mas o blog é censurado.
Acho q nessa discussão ficou bem clara a posição reacionária do Libar e, consequentemente, do Anjos, que vê na parceria com as estatais um viés de sobrevivência e abarcamento da tradição do riso facil pelos meios de comunicação de massa. Enquanto houver esse abarcamento, essa cultura do tapinha nas costas e uma parceria entre inimigos ideológicos, acreditando que é melhor estar junto, debaixo da asa do capital, sendo vigiado mas não punido, não chegaremos às vias de fato, ao movimento terceiro mundista defendido pela geração chacovachi.Até as terminologias como clown brasileiro são mostra desse aculturamento, dessa fraqueza que o riso apresenta hoje. Somos fruto da coisificação. é melhor ter camiseta do espetáculo pra vender na saida do teatro, pq assim parece que é grandioso, parece q é organizado, mas quem fez as regras foram outros.Quando se fala em direito à cultura, não se nota a contradição. é como falar de dieito à vida ou à morte. Ninguem dá esse direito, é condicional, é natural assim como cultura, ir e vir, linguagem. não preciso de direito a isso, mas acredito que tenho o direito. que alguem me permite ou proibe disso e daquilo. Poder, verdade e direito estão encrustados na cabeça do pessoal como questões ditadas, concedidas, escritas em algum lugar.Enquanto for assim, as iscussões vão terminar como essa terminou: cervejinha no buteco...e ainda tem gente falando que o brasil não tem cultura...tem sim: a do tanto faz.e aí, marcião, vendeu bastante camiseta? voltou ao "poder"? que papo brabo...ta na cara que anjos do picadeiro é só a manifestação pop, mass midia como colocou o Possolo. Palhaço mesmo tá falando da criança largada na lixeira, da criança que morreu de sede, do pai de familia que dormiu na rua pq não interou a passagem pra voltar até o barraco. e não de crises criativas sobre o palhaço clown q não decide se quer ser stand up ou cuti cuti...Ja dizia o Assumpção: culturalmente falando, brasileiro já é tudo aculturado.vai que vai....viva a discussão,enquanto for preciso, temos que falar.Um abraço pra quem vaiou o esio, esses sim não vão mudar nada, mas são muuuito democraticos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Oficinas Anjos do Picadeiro 2009

Palhaços, cômicos e mímicos do mundo inteiro!

Estão abertas as inscrições para as oficinas do Anjos do Picadeiro 8, que será realizado de 23 a 29 de novembro em Florianópolis.
As oficinas acontecerão nos dias 23, 24 e 25, das 9 às 13h.
Maiores informações: (21) 22400930 ou anonimo@teatrodeanonimo.com.br

1.
A Arte do palhaço, improvisação e comédia física
por Julie Goell (EUA)
Esta oficina visa dar ferramentas aos alunos para que se sintam confortáveis com o imprevisto no palco. Para o palhaço, falhar é um presente que permite que sua persona interna cresça. A comédia começa com o relaxamento e o conforto no seu próprio corpo estando no palco, pois a tensão é inimiga. O curso ajudará os participantes a encontrarem conforto, criatividade e humor no improviso e inclui aulas de aquecimento e técnica, além de estudos de cenas com foco na solução de problemas do mundo do clown.

Para profissionais de teatro, professores e alunos
Número de participantes: máximo 16
Usar roupas leves, que permitam movimento fácil, sapatos de dança ou tênis.

Sobre Julie Goell
É professora de Eccentric Performance e Commedia dell' Arte no Celebration Barn no Maine. Seu espetáculo Opening Night Carmen, que será apresentado no Anjos do Picadeiro, foi o ponto alto do Festival Des Pallasses em Andorra e do Clown Festival em Arrigoriaga, Espanha. A faxineira da Royal Opera de Londres toma conta do palco produzindo a sua própria versão da ópera Carmen usando rodos, vassouras e um balde de talento. A comediante Julie Goell combina teatro físico com uma voz magnífica de mezzo soprano para oferecer a mais deliciosa e incomum versão da Carmen de Bizet jamais vista. Dirigida por Mark Ross, o texto é do diretor e da atriz.

2.
Realidade Mímica
por Álvaro Assad - Centro Teatral e Etc. e Tal (RJ)

Trabalha os movimentos corporais assim como técnicas ilusórias da arte gestual. Esta oficina de mímica visa levar uma forma de expressão pouco convencional ao conhecimento daqueles que não têm intimidade com a comunicação não verbal.
Exclusivamente para atores, estudantes de teatro e curiosos.
Número máximo de participantes: 20.

Sobre o Centro Teatral e Etc. e Tal
O Centro Teatral e Etc. e Tal vem explorando, desde 1993, as inimagináveis possibilidades da mímica. Enlouquecidamente criativo, inventou a “mímica falada”. O resultado é um jogo hilário, metamímico. E a plateia ri do que vê, do que ouve e do que imagina. Viajante por natureza e paixão, em 15 anos de trabalho constante o grupo formou um vasto repertório de cenas avulsas e espetáculos adaptáveis a qualquer espaço, público ou ocasião. Formado pelo trio de cômicos Melissa Teles-Lôbo, Marcio Moura e Álvaro Assad, o ETC E TAL vem imprimindo uma linguagem própria e aprofundada sobre a mímica e a comicidade sem perder o que mais se preza no fazer teatral: a relação empática com o público.


3.
Oficina com Loco Brusca (Argentina/Espanha)
A oficina abordará os conceitos de projeção, presença, ritmo, jogo, consciência de grupo, improvisação, imaginação, percepção e evolução sensorial. Cada um desses temas propõe diferentes exercícios individuais e coletivos, pois esse tipo de trabalho permite uma abertura de nossa criatividade e deixa nosso ego de lado, contribuindo para um resultado de todos. É esse o objetivo da oficina, já que para sair à rua no último dia de trabalho, como prova de fogo, será necessária a interação coletiva. Só então poderemos ver os resultados. A oficina tem uma sintonia orientada pelo jogo do palhaço.


Sobre Loco Brusca
Luis Brusca é ator, diagnosticado um psico-clown ‒ não se sabe quando nem por quem ‒ que tem se especializado na performance de rua. Tomando o humor como ferramenta fundamental de trabalho, tem encontrado um estilo próprio para recriá-lo sempre, buscando aproximar-se e envolver um público assombrado, mas sempre atento. Com sua experiência de anos, adquiriu numerosas habilidades que fazem dele um profissional flexível e completo (pantomima, bufão, monociclo, malabares, globoflexia, pirofagia, dança etc.). Começou a estudar atuação na Escuela Nacional de Arte Dramática de Buenos Aires, Argentina. No fim dos anos 80, para entrar no universo da comédia, elegeu Barcelona para desenvolver seu aprendizado com os mestres Johnny Melville, Jango Edwards, Albert Vidal, Gabriel Chamé Buendía y Elizabeth Couchetief. Mais tarde aperfeiçoou sua atuação de clown com John Wright; drama com Ernie Martin, e teatro experimental com Stephan Metz. Seus personagens Speerman, General Mierden, Don Zoilo y El Hombre Esquizofrénico del Siglo XXI, Mr. X, Guasavi e Baca Shtruck são algumas das produções, utilizando diversas linguagens de humor: branco, negro, adulto, intelectual, infantil, ácido, bizarro, político, picaresco, direto, indireto etc. Estas características fazem com que seus shows ‒ em vários idiomas ‒ se adapte a todo tipo de espaços, públicos e programas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Novidades do Anjos do Picadeiro deste ano!

Chamada para comunicações e publicação

O Anjos do Picadeiro – Encontro Internacional de Palhaços será realizado em Florianópolis-SC, no período de 23 a 30 de novembro com o tema Espiral de influências, e neste ano apresenta uma inovação para aqueles que estão interessados na discussão e reflexão sobre seu ofício ou na apresentação de pesquisas no campo da comicidade: o I Seminário de Comicidade Anjos do Picadeiro.

Aceitamos inscrições gratuitas para comunicações orais ou escritas e depoimentos tanto de estudiosos do tema quanto de artistas interessados em discutir pesquisas referentes à criação de seus números. Basta enviar um pequeno resumo de sua fala para o e-mail seminarioanjosdopicadeiro@gmail.com com o título Seminário de Comicidade, até o dia 31 de outubro de 2009. O tempo para cada comunicação é de 20 minutos com espaço para debate ao final das rodadas de apresentações.

A programação do Anjos do Picadeiro está assim distribuída:
Papo de palhaço: (entrevistas abertas com os palhaços participantes): todos os dias, às 14h
Painéis de comunicações: dias 23 e 24, das 15 às 17h
Encontro de mestres (com a família dos Biribas) – dia 24 às 14h
Mesa de debates Matrizes da comicidade latino-americana – dia 26 às 14h
Os espetáculos nacionais e internacionais acontecem diariamente às 11, às 17 e às 20h em vários espaços da cidade e ainda estão abertas as inscrições para as oficinas, que acontecem nos dias 23 a 25, das 9 às 12h.

Os interessados em publicar seus textos apresentados no seminário na Revista Anjos do Picadeiro, com publicação em março de 2010, devem enviá-los para seminarioanjosdopicadeiro@gmail.com até o dia 10 de dezembro de 2009, observando-se as seguintes normas:
1. Formatação: papel A4, margens de 3 cm, fonte Times New Roman, corpo 12, parágrafos justificados, espaçamento 1,5.
2. Estrutura: título centralizado na primeira linha, nome do autor alinhado à direita na segunda linha, subtítulos das seções em negrito e sem recuo de parágrafo.
3. Citações bibliográficas: o sobrenome aparece apenas com a primeira letra em maiúscula. Ex.: Candido (1998, 18); (Candido: 1998, 18).
4. Notas: devem ser evitadas, mas, se necessárias, devem constar do rodapé, em Times New Roman, corpo 12, espaçamento 1,5.
5. Referências bibliográficas: apresentadas ao final do texto, de acordo com as normas da ABNT.
6. Medidas: de 5 a 10 laudas. Uma lauda equivale a 2.100 caracteres com espaços.
7. Acrescentar ao final do texto os dados curriculares do autor em, no máximo, cinco linhas.

Mais informações através do e-mail do seminário ou pelos fones (21) 2240-2478 (Anônimo) e (21) 8874 8362 (Ieda Magri) .

domingo, 20 de setembro de 2009

Identidade visual do Anjos 2009 - edital

EDITAL IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO

O Grupo Anônimo de Teatro torna público o presente edital de IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO através dos integrantes de sua mala direta.

1. DO OBJETO
1.1 Receber propostas de artistas plásticos, designers e afins para realização da identidade visual do Anjos do Picadeiro 8 – Encontro Internacional de Palhaços.

2. DAS CONDIÇÕES
2.1 Poderão participar do edital de IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO, empresas, grupos, pessoa física com comprovado currículo na área objeto deste edital.

Parágrafo Único – É vedada a participação de órgãos públicos.

3. DO TEMA
3.1 O tema proposto para a 8ª edição do Anjos do Picadeiro é:
“Anjos do Picadeiro 8 – Encontro Internacional de Palhaços: Espiral de Influências”
Espiral de Influências - ao longo da história do encontro, inúmeras trocas e influências estéticas e éticas se dão entre mestre e aprendiz. Os aprendizes por vezes tornam-se mestres, a formação se dá por uma espiral de influências. Movimento dinâmico que norteia esta trajetória.

Parágrafo Único – Este tema será manifesto nas seguintes peças gráficas: cartazes, convites, filipetas (papel e virtual), folder-catálogo, banners (cerca de 6 formatos), outdoor, anúncio em jornal, material promocional (camisetas, bolsas, etc) e página de rosto do site anjos do picadeiro.

4. DO PRAZO
4.1 As propostas serão aceitas até 23 de setembro de 2009 e deverão conter um rascunho gráfico da identidade visual do encontro e uma descrição detalhada da proposta, apontando também o cachê pretendido.
4.2 Serão desconsideradas as propostas feitas após a data de encerramento;
4.3 As propostas poderão ser encaminhadas para:
4.3.1 EDITAL IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO
Coordenação do Evento
Rua da Lapa 180 sala 903
Lapa / Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20021-180

Ou

4.3.2 - EDITAL IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO
anonimo@teatrodeanonimo.com.br

5. DA SELEÇÃO
5.1 A seleção da proposta que deverá ser contemplada com o EDITAL IDENTIDADE VISUAL ANJOS DO PICADEIRO será realizada por uma Comissão composta e indicada pelo Grupo Anônimo de Teatro.
5.2 A Comissão de Seleção é soberana, não cabendo veto ou recurso às
suas decisões;
5.3 O resultado final será divulgado no site do Grupo Anônimo de Teatro www.teatrodeanoninmo.com.br) devendo ocorrer em até 10 dias após
o término das inscrições.

6. DOS CRITÉRIOS DE SELEÇÃO
6.1 O Grupo Anônimo de Teatro estabelecerá as seguintes diretrizes gerais de avaliação para a Comissão de Seleção do presente edital:
a) Excelência e qualificação artística da proposta;
b) Viabilidade prática e monetária da proposta.

7. DOS COMPROMISSOS
7.1 O Grupo Anônimo de Teatro compromete-se a contratar os serviços do idealizador da proposta selecionada em todo o material gráfico objeto deste edital.
7.2 O Grupo Anônimo de Teatro compromete-se a não divulgar, fazer uso e difundir a idéia das propostas não selecionadas.

8. DAS DISPOSIÇÕES FINAIS
8.1 As decisões finais referentes a este Edital cabem ao Grupo Anônimo de Teatro
8.2 O selecionado estará sujeito às penalidades legais pela inexecução total
ou parcial da proposta ou, ainda, pela execução de sua proposta em desacordo com a descrição contida quando da aprovação pela Comissão de Seleção.
8.3 O idealizador da proposta vencedora autoriza, desde já, o Grupo Anônimo de Teatro o direito de utilizar em suas ações de difusão, quando achar oportuno, sem qualquer ônus, as peças publicitárias objeto deste edital.
8.4 As propostas não selecionados ficarão à disposição dos interessados na
Coordenação do evento até 60 (sessenta) dias após a divulgação do resultado. A não retirada neste prazo permitirá a sua inutilização pelo Grupo Anônimo de Teatro.
8.5 Outros esclarecimentos podem ser obtidos pelo endereço eletrônico
anonimo@teatrodeanonimo.com.br ou pelo telefone 2240-0930.

Rio de Janeiro, 08 de setembro de 2009.
Grupo Anônimo de Teatro

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Chacovachi entrevista Jesús Diaz, palhaço e diretor da Sensacional Orquesta Lavadero, do México


Para dar aquele gostinho de esse ano tem mais Anjos do Picadeiro:

Chacovachi - Para começar, te dou as boas vindas a isto que é uma família, o Anjos do Picadeiro. Esta família já tem 10 anos e geralmente os artistas se vêem todos os anos. Vemos como cada um cresce, evoluindo, ou “involuindo”, depende para aonde vão. Jesús, você tem um nome de palhaço?
Jesús - Não, utilizo sempre meu nome. No México, o diminutivo de Jesús, que é o meu nome, é Chucho. E também se referem assim aos cachorros. Então, o meu diminutivo é Chucho.


Chacovachi - E também te chamam de Chucho na sua casa?
Jesús - Sim, apesar de que meu avô, que também era Jesús, se opunha porque não gostava que o chamassem de Chucho. Nasci no dia do aniversário do meu avô, e como presente me chamaram Jesús.


Chacovachi - E a Jesús, o filho de Deus, também o chamam de Chucho?
Jesús - Sim, é uma relação carinhosa. Você sabe que no México os diminutivos são muito importantes. Você pode xingar alguém, mas se bota o diminutivo, é carinhoso.


Chacovachi - Chuchito.
Jesús - Sim (risos).


Chacovachi - Então, vou te chamar de Chucho. Chucho, onde você mora, como é o movimento artístico lá e como você está integrado no movimento? Você mora no Distrito Federal?
Jesús - Vivo no Distrito Federal, o que significa fazer esforços muito grandes para ser conhecido em setores pequenos. É uma cidade descomunal e se não tem presença na TV, é como se não existisse. O caminho alternativo é criar um público, a própria família que segue o artista, ou de boca em boca, como é o meu caso.


Chacovachi - Evidentemente vocês são palhaços diferentes dos que de alguma maneira a TV propõe.
Jesús - Sim, absolutamente. Por exemplo, eu não utilizo nariz, como não utilizo maquiagem.

Chacovachi - Em Buenos Aires se diz que coitado do México, tão longe de Deus e tão perto dos EUA... Imagino que devem estar muito influenciados pelo palhaço americano, que é pouco humano, um palhaço que está muito maquiado, muito produzido, com uma voz que é o estereótipo do palhaço. Não acho que você seja assim. Mas gostaria de saber qual é sua forma, seu estilo, os canais de comunicação que você utiliza, se utiliza a palavra ou não, se o gesto é importante na construção de teus espetáculos.
Jesús - Nos meus espetáculos eu praticamente não falo, porque o palhaço é ele mesmo, eu sou muito tímido pra falar.



Chacovachi - Dá pra ver.
Jesús - Procuro falar o menos possível, em cena ou não. Isso fez com que meus gestos faciais e corporais sejam o que priorizam a comunicação. Trabalho muito com pausas longas, onde permito que o público imagine o que está pensando esse idiota que não fala e a partir da situação e das pausas, o público descobre as palhaçadas ou bobagens. É uma relação que vai se estabelecendo devagar, o público vai percebendo que essa pessoa tem um ritmo tão devagar, é uma expressão de pedra, tão dura. Isso vai estabelecendo uma relação, a não ser que aconteça alguma coisa com os meus olhos...


Chacovachi - Teu palhaço ri? Porque me lembra Buster Keaton isso que você está me falando.
Jesús - Sim, no México muitos me comparam com Keaton.


Chacovachi - Como Keaton, porque Keaton não falava, dirigia tudo com a ação, tinha gestos.
Jesús - Era mais com uma ênfase visual.


Chacovachi - Isso mesmo. É uma comunidade de quantos palhaços? Porque geralmente: você mora no DF, eu moro em Buenos Aires, são coisas parecidas. São Paulo... cidades tão grandes que é impossível juntar todos. Tem muitas tribos artísticas. Você tem muitos companheiros palhaços, colegas com os quais você se junta, pesquisa, investiga. Não de um modo formal, mas acho que, quando me encontro com um colega palhaço, não consigo deixar de falar do que faço. Sobretudo, com alguém que ama o mesmo. Porque não é qualquer um que gosta de nossa expressão. Já me aconteceu de aborrecer alguns, e pedirem pra mudar de assunto. Como é esse grupo? Existe?
Jesús - A Aziz Gual e a mim nos tocou ser de alguma maneira os pioneiros, com uma linguagem que permite uma diversidade de estilos, de maneiras de fazer, uma diversidade de âmbitos de trabalho. No México, até uns 10 anos, o palhaço era exclusivamente para meninos, nada mais. Então, há cinco anos tivemos a sorte de termos o mesmo mestre, Anatoli Locachtchouk, um ucraniano que foi morar no México há 15 anos.


Chacovachi - Vive?
Jesús - Sim, mora lá. Ele foi aluno e assistente de Karandas na época de ouro do circo soviético. Tivemos o mesmo mestre e tivemos que ser pioneiros de uma linguagem que no México estava esquecida. No México só tinha palhaços de festa e alguns, muito muito velhos, palhaços de circo que continuavam com o jeito dos palhaços do começo do século XX. Era tudo o que tinha. Então nós tivemos que ser os pioneiros e muitas pessoas se transformaram em nossos alunos, de uma maneira indireta. Assim, tem um círculo de pessoas que vai crescendo e que vê a gente como modelo, opção, alternativa.



Chacovachi - E vocês pegam esse lugar, como tem que ser? Dando aulas?
Jesús - Sim, no México não há escolas de circo. Não há escolas de palhaços, como nos outros países. A mim me surpreendeu muito que no Brasil não tinha escola de palhaços.


Chacovachi - Tem muitas oficinas, muitos cursos, pessoas de fora. Reconheço que escolas especificamente de palhaços eu não conheço.
Jesús - Na Europa são de circo.


Chacovachi - Sim, sempre são oficinas, cursos de um ano. Imagino que seja porque o palhaço pode se ensinar e também é uma decisão própria a investigação que a gente pode ter.
Jesús - Eu acho que o palhaço tem muito da tradição clássica de aluno e mestre como os antigos artesãos. Como um sapateiro daqueles antigos maravilhosos que escolhe um único aluno e lhe ensina tudo o que sabe.


Chacovachi - E a questão social no México, a política sócio-econômica, influenciam no que você faz?
Jesús - Tudo depende da situação, do que se esteja vivendo naquele momento. No México teve eleições em 2006, foram fraudulentas e se pode fazer muitas coisas pra expressar nosso descontentamento, pegar vias alternativas, por exemplo. Evitar os subsídios governamentais. É outra forma de fazer política, rechaçar.


Chacovachi - De que você vive? Eu falo que um profissional é quem vive da sua profissão, evidentemente pra poder crescer tem que transformar-se em um profissional. Como ganha seu dinheiro?
Jesús - Fundamentalmente com os espetáculos de palhaço, mas também dou aulas.


Chacovachi - Espetáculo onde as pessoas pagam ou você também é contratado?
Jesús – Ás vezes somos contratados. Outras vezes as pessoas pagam. No México, é muito difícil trabalhar num teatro, o ritmo é ruim, porque você pede um teatro e podem conseguir só um ano depois, quando o seu ritmo já é outro, já quero fazer outro espetáculo... É muito devagar. Então, comecei a trabalhar em espaços alternativos como a rua. Atuo como palhaço em bares e cafés e isso me dá um público que me segue de bar em bar, é muito legal porque não precisa de subsídios. No México funciona muito o sistema de bolsas onde o artista propõe o projeto e o governo banca, mas nós estamos fora disso. Do sistema que limita o que queremos fazer, como queremos fazer.


Chacovachi - Eu penso igual a você. Poderíamos falar um bom tempo, mas a entrevista é com você. Como nasceu teu palhaço? Qual foi tua decisão, imagino que a gente entra sem se dar conta no mundo do palhaço, porque têm muitas coisas, estilos, ninguém pensa: “quero ser ator, ou quero ser palhaço”, tem um momento que tem um clic e a gente se dá conta de que está fazendo rir, que isso é a única coisa que quer e a partir disso emocionar, criticar, delirar, de acordo com seu caminho. Mas essa liberdade que te dá o palhaço de ser tudo sem ser nada, em que momento você sentiu isso na sua vida artística?
Jesús - Eu primeiro quis ser ator, entrei na escola de atuação, começou a acontecer um fenômeno que no começo foi muito doloroso. Eu queria ser um ator trágico, um ator dramático e quando atuava com mais profundidade, com mais seriedade, as pessoas riam. No começo foi doloroso porque eu pensava: que ator ruim eu sou!


Chacovachi - Porque tudo depende da pretensão. Você queria fazer chorar e as pessoas riam.
Jesús - Riam e isso misturava com um gosto especial que eu tinha de todo o tempo querer derrubar a quarta parede. Não gostava de atuar e pretender que não existisse o público. E meus mestres de atuação não gostavam que eu voltasse o olhar ao público.


Chacovachi - A mim aconteceu quase a mesma coisa. Meu mestre de atuação, agora me convida para suas festas, me reconhece como um aluno importante dele. Mas a última coisa que me falou foi, depois de 15 anos: “Chacovachi, o que você faz não é arte”. Fiquei ofendido. Já tinha feito rir, já era palhaço. Eu acho que temos que passar por esse caminho de sentir que o que fazemos vai custar muito a ser reconhecido, e isso dá uma força maior. De sentir que o que você quer fazer, aonde você quer ir é um lugar muito difícil de chegar, e o caminho é doloroso.
Jesús - E também tão individual, não pode repetir o caminho de outros palhaços, são diferentes as características. Eu me dei conta de que quanto mais sério eu atuava, mais as pessoas riam. Uma vez aconteceu que fiz um espetáculo dois dias depois da morte de meu pai. Comecei a atuar e comecei a me sentir profundamente triste, porque meu pai era uma pessoa com um sentido de humor realmente infantil. Meu pai era um homem de 60 anos que vivia como um garoto, todo tempo estava atuando, era uma grande inspiração pra mim. Acho, desde sempre, que o palhaço faz com que os meninos riam com uma inteligência quase adulta, e que os adultos voltem às origens infantis. Então meu pai era uma grande inspiração porque era o tempo todo um menino em corpo de velho. Quando ele morreu, eu atuava e me lembrava de uma parte do espetáculo que tinha feito pensando nele e fiquei triste. Interrompi o espetáculo e falei pro público que eu não podia continuar “estou muito triste, meu pai morreu há dois dias” e o público começou a rir e eu falava que era sério “meu pai morreu há dois dias” e o público ria mais ainda. Até que chegou uma hora que a risada era tanta que até eu comecei a rir e me senti confortado, me senti acompanhado por amigos, grandes amigos que riam comigo e me faziam sentir melhor, e continuei o espetáculo.


Chacovachi - O que você acha da tragédia na construção do humor? Acho que toda piada tem uma tragédia e que o humor foi inventado pra sublimar as tragédias. Os países e as pessoas só podem ter paz com o que podem rir, porque quando você ri de uma coisa pode ficar longe dela, e quando fica longe consegue ver as coisas de outro lugar. Então a pergunta é: onde estão as tragédias nos teus espetáculos?
Jesús - Eu acho que a linha que divide a tragédia da comédia é muito fina e pode ter dois sentidos: ou se pega uma tragédia como base, como ponto de partida pra fazer o humor, ou os problemas são tão banais, tão simples como um chapéu que o tempo inteiro pula, uma coisa que ninguém dá importância, mas, pra um palhaço, é onde ele põe toda sua vida. Se o chapéu não fica na cabeça, pode fazer com que se sinta a pessoa mais triste deste mundo e nisso também há tragédia. É a forma com que cada um dimensiona as coisas.


Chacovachi - Imagina que você não é um palhaço, é um operário, vai trabalhar, e um dia bota um chapéu e ele não fica na cabeça. É uma tragédia, além disso, isso só acontece com você, é uma tragédia. O palhaço se permite brincar com coisas que depois simbolizam outras, porque o chapéu que não fica na cabeça pode ser muitas coisas que não ficam na cabeça, e pode sofrer. Que idade você tem?
Jesús - 39.


Chacovachi - Quanto você acha que sua idade influencia no seu palhaço?
Jesús - Muito. Comecei a ser palhaço há 12 anos, mais ou menos, e minha relação com o público mudou muito. Percebo a mudança. Acho que a idade é importante. Meu mestre Anatoli dizia que existe um palhaço antes dos 40, 45 anos. Antes pode aprender a técnica, pode aprender jogos, gestos, maneiras, mágicas, como comunicar-se com as pessoas, mas pra ser um palhaço somente depois dos 40, 45 anos.


Chacovachi - Acho que sim, porque uma das qualidades do palhaço é a credibilidade, e se se fala de amor, de tragédia, quem é muito jovem não é muito acreditável. Um adolescente não pode ser palhaço, eu acho. Porque adolescente não sabe muita coisa, não sofreu pra dar a volta e fazer rir. A mim acontece que os palhaços velhos me matam...
Jesús - Com uma simplicidade... Quando se é jovem tem que procurar muito uma forma de mostrar verdadeiramente uma coisa que talvez não vivesse. Eu me lembro muito de Charles Chaplin com o violão. Aparece de forma muito simples: só bota o seu violão no pé e já sabemos quem é e de onde vem.


Chacovachi - A gente já se entrega. E no trabalho de rua, você passa o chapéu?
Jesús - Sim, sim. Faz um tempo que não trabalho na rua, trabalho mais em bares e cafés, mas já fiz, e também dentro do metrô.


Chacovachi - Porque a rua é pra palhaços jovens, depois dos 40 a gente faz menos, é um pouco mais dura a rua. Faz temporada por sua conta, ficando um mês no mesmo lugar, por exemplo?
Jesús – Não. Sempre mudei de lugar. Fiz circo também, temporadas em teatro, de tudo um pouco.


Chacovachi - Tem um tema que o Anjos do Picadeiro propôs, é um tema que vou abordar na mesa de debates Marmeladas e (im)posturas[1], e gostaria de saber sua opinião. O mundo se globalizou, todos queremos o mesmo tipo de mulher, conhecemos as marcas das calças, a TV, uma onda de informação a todo o mundo, tem palavras que todo mundo conhece, lugares, por conseguinte, a troca de informação, tudo se globaliza. Inclusive o humor. Acho que tem humores que são muito particulares, o humor de um grupo de amigos. Tem certas piadas que só são compreendidas por aquele grupo que se conhece e sabe do que se está falando. Um humor muito particular, é pessoal. Depois vem o humor de sua família, de sua escola, de onde você foi criado. A gente vai se criando com certos humores que só são engraçados nesses contextos. Todos nós estamos na globalização e o humor da gente também se globaliza, porque temos intenção de viajar, de nos apresentar diante de outro público e o artista cresce se apresentando diante de diferentes públicos, claríssimo. Esse humor que você mamou com o teu pai na juventude ainda existe em você. Por exemplo, a partir dos Simpsons o mundo mudou, mudou o humor permitido no mundo. Se permite esse humor muito mais ácido, muito mais politicamente incorreto, que é apreendido por todos nós. Então, esse humor que você tinha com seu pai, com seus amigos na escola, ainda existe em você, nos seus espetáculos, você resgata ele ou sente que tende mais para o riso globalizado?
Jesús - Meu pai, além de ter um grande humor, era adorador da música de todos os tipos. Me lembro que sempre estava ouvindo música. Tudo ele fazia com um pequeno rádio que levava pra todas as parte, então eu, desde muito novo, ouvia jazz, boleros, óperas, todo tipo de música. É à música dessa época a que recorro nos meus espetáculos. A mesma coisa acontece com algumas palavras que já não se utilizam no México, mas eu continuo utilizando. Por exemplo, hoje em dia, quando os jovens se juntam, eles dizem “vamos nos juntar com a banda.” Nos tempos de meu pai se utilizava a palavra “palomilla” para o grupo de amigos. Então, quando eu utilizo a palavra palomilla no meu espetáculo é muito anacrônico. A mesma anacronia lhe dá um sentido humorístico muito interessante.


Chacovachi - Uma última pergunta que quero fazer: falo que nós, palhaços, trabalhamos com a cabeça, com o coração, com o estômago e com os “ovos” a parte vital, a energia vital. Os franceses, por exemplo, trabalham muito com o coração, depois com a cabeça, tem um pouco disto e outro daquilo. O palhaço mexicano, com o que trabalha? Com o coração, com a cabeça, com as tragédias, ou simplesmente com a sua energia?
Jesús - Não sei, acho que tradicionalmente trabalhamos mais com o estômago, com a tragédia, com uma necessidade urgente de se ganhar o pão, mas dali pode se desenvolver um trabalho que tenha muito a ver com isso, e disto passa pra aquilo. Temos muito de “Cantinflas,” uma pessoa jovem que tem uma necessidade de sobrevivência e que sonha com inteligência. Existe a palavra “cantinflar” no dicionário, que é isto: falar muito e não dizer nada.

Chacovachi – “Sanatar” se diz na Argentina. Eu tenho um ídolo mexicano, que é o Chaves. As situações de palhaço que tem naquele pátio, com a vizinhança... cada coisa, cada situação. São esquetes antigas... Você é influenciado por Cantinflas, você gosta dele?
Jesús - Gosto muito.


Chacovachi - Gosta do Chaves?
Jesús - Sim. Claro. Crianças de todo o mundo o assistem. Eu vejo e gosto. A virtude que teve o Chespirito, de poder adaptar essa linguagem que parecia longínqua para os mexicanos... Em todas as partes o Chaves é querido. Tenho muita influência de Cantinflas, teve um tempo em que a arte no México era um movimento muito nacionalista, e o mexicano tinha um valor importante: Diego Rivera, Frida Khalo, se inspiravam nesses temas e pintaram em muros públicos para que todas as pessoas pudessem ver. Chaves se inspirava na música popular, na música folclórica, pra compor. Muito interessante que depois o governo o fez oficial. Então os artistas já não queriam se unir a ele, porque era uma ordem de cima, um protótipo, já não tinha dinamismo, não tinha o mesmo valor. Então aconteceu uma ida e volta dos artistas mexicanos com um dilema: pra ser mexicano tem que ser universal.


Chacovachi - A autenticidade é um dilema dos artistas. Outro dia assisti ao filme do Almodóvar, tinha um travesti na frente do espelho se transformando, e, ao lado, estava uma amiga dizendo que estava feio, que não era autêntico... E o travesti, enquanto colocava os seios, respondeu que a única forma de ser autêntico era parecer-se com seu próprio sonho. Acho que é uma ótima resposta. Tem que ver qual é o sonho pra procurar a autenticidade. Eu sou um palhaço argentino, então tenho que comer churrasco, jogar futebol, tenho que comer doce de leite... Eu não gosto de churrasco e nem de futebol. E continuo sendo argentino. Na construção de uma vida inteira, quanto mais você sabe sobre sua vida, mais vai saber sobre seu palhaço. E vice-versa. Gosto muito do palhaço que estou descobrindo em você, porque essa é a forma: ficar longe do estereótipo e procurar a expressão. Bom, fiquei com muita vontade de te ver trabalhando e foi um prazer te conhecer.
Jesús - Igualmente.



[1] Participaram da Mesa: Chacovachi, Ésio Magalhães e Sidnei Cruz.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Amanhã tem lançamento!

Amanhã é o grande dia do lançamento da Revista Anjos do Picadeiro 7.
Tem texto de André Bueno, Erminia Silva, Adriana Schneider, Evângelo Gasos, e duas belas entrevistas: com o Xuxu e com o Aver Eisenberg que, aliás, é o convidado especial da Noite de Parangolé.

Quinta, 11 de junho, às 20h
Na Fundição Progresso - Lapa


Uma amostrinha - que é pra dar água na boca - da entrevista do Avner:

Márcio Ballas - É um ponto principal, fazer rir?
Avner - É uma pergunta interessante, e uma das mais recentes sobre o palhaço. A relação com a platéia é como uma relação de amor, de início, palhaço e público estão se conhecendo, é a primeira vez, então você quer causar uma boa impressão. Mas se começar a contar um monte de piadas, é demais. É preciso ir devagar, desenvolvendo o interesse. É muito como uma relação amorosa.

Márcio - Você tem mestres que o ajudaram na vida, que o ensinaram, o inspiraram?
Avner - Lecoq, claro, ele é o primeiro. E o Carlos Mazzone, que também foi aluno do Lecoq, e quem começou a Art School of Physical Comedy na Califórnia. Outra influência é Milton H. Erickson, que é da terapia hipnótica, e a filosofia do seu trabalho é incrível. Eu também sou estudante de aikido, o que me ajuda muito na comunicação com a platéia, física e emocionalmente. E estudo mágica, com muitas pessoas... E minha mãe, meu pai...

Márcio - Você conhece o Aziz Gual, do México? Ele tem uma coisa que é interessante: acha que existem diferentes tipos de risada, a risada que vem daqui (cabeça), daqui (peito), daqui (barriga)... O que você acha?
Avner - Eu ri porque lembrei as lições de Carlos sobre aqui, aqui e aqui (cabeça, peito e barriga): em grego, a cerveja é da barriga, o uísque da cabeça e o vinho do coração. Eu acho que a relação com a platéia tem que ser um diálogo com quem você ainda não conhece. É como conhecer uma nova pessoa: se você tem uma idéia, um jeito que quer que ela seja, nunca funciona. Pra mim, esse é o ponto da relação, tem respeito, gentileza e um senso de conforto.
Márcio - O espetáculo que nós vimos ontem, Ecceptions to Gravity, é o mesmo que você me mostrou há 10 anos. Quantos anos ele tem?
Avner - 35 anos. É uma evolução.

Márcio - Eu fico encantado de ver que o espetáculo acontece no momento e é único apesar de ser o mesmo em 35 anos. O relacionamento acontece naquele momento, a brincadeira, o entrosamento entre você e a platéia. Ontem havia 400 pessoas, mais ou menos. Como é representar sem poder olhar nos olhos de cada um da platéia, mas mesmo assim se apresentar de uma maneira tão doce, tão sutil?
Avner - Você finge. Você finge que consegue vê-los, e eles fingem que são vistos. Você interpreta para mil, duas mil pessoas. Como você poderia fazer isso? Bom, as pessoas do fundo vêem um espetáculo diferente daquelas da frente. Essa é a técnica, saber mudar o tamanho. O tamanho da respiração, para que a comunicação vá para todo o teatro. Quando você trabalha com iniciantes, eles dizem que as luzes machucam seus olhos. Bom, se machucam seus olhos, estão no lugar certo mesmo se queixando de não poder ver a platéia. É um constante diálogo, no início da carreira você se esforça, se esforça...e um dia você consegue ver apesar da luz e receber os aplausos.

Márcio - Alguns palhaços pedem muito por aplausos.
Avner - Você não deve nunca, nunca, pedir aplausos. Voltando à nossa analogia: é como estar com alguém pela primeira vez, e ficar querendo que a pessoa te diga o quanto gosta de você. Se fizer isso, ficará sozinho nessa noite. É assim no palco também. Deixe que eles façam o trabalho deles. Se eles gostarem de alguma coisa, irão aplaudir. E aí você agradece.

Márcio - É que às vezes eles podem não aplaudir.
Avner - Mas tudo bem se eles não aplaudirem! É interessante, e se você tem atitude, não importa se eles riem ou não. Eles começarão a ir com você, e então terá risadas. Mas se você disser a eles que precisam rir agora, no momento em que você não está fazendo nada, então não confiarão em você e ficarão longe...

Leia mais na Revista Anjos do Picadeiro 7!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Alice Viveiros de Castro entrevista Kuxixo

Nesta entrevista você poderá entrar na intimidade de Hudson Rocha, o palhaço Kuxixo, que conta como começou, relembrando aí o trabalho no circo-família e como foi construindo seu estilo sempre em busca de autenticidade. Alice Viveiros de Castro, conhecedora da trajetória de Kuxixo, soube dar o tom de conversa à entrevista concedida na sétima edição do Anjos do Picadeiro, no Rio de Janeiro.
Confira!


Alice - Kuxixo, de onde vem este nome?

Kuxixo - Eu sou quinta geração circense da minha família. O circo no Brasil começou como circo teatro, então a minha família é do circo-teatro. O meu avô, vovô Pirulito, não é meu avô de verdade, mas acabou por criar minha mãe, que chegou no circo aos 6 anos e saiu com 21 para se casar com meu pai. Então o vovô que eu tive foi ele. Tinha uma peça no circo que se chamava Rosa e a nossa Senhora e ele fazia o cômico da peça. Ele usava uma peruca que era em pé, cabelo todinho em pé. Cada vez que ele entrava, fazia a gag dele, todo mundo falava: “você só fala bobagem, vai procurar o Kuxixo”. O Kuxixo era um burro, só que esse burro nunca aparecia, então ele falava: “que que é isso?” “Vai trabalhar vagabundo! Vai procurar o Kuxixo”, era a resposta. Então vinha o arremate: “tudo eu”, “tudo eu”. “Ô Kuxixo, ô Kuxixo!” e saía chamando... Quando nasci, minha mãe ficou três dias desacordada e quando me viu pela primeira vez, eu tinha o cabelo igual à peruca do vovô Pirulito. Ela olhou pra minha cara e falou “ô Kuxixo!” História de palhaço...

Alice - Teu pai tem uma história engraçada também, porque ele diz que não é palhaço, que é cômico...

Kuxixo - Caipira! O estilo dele é aquela coisa do antigo, hoje em dia a gente fala o nome dele com o adjetivo: Fedegoso Palhaço Caipira. Foi difícil, ele aceitou, não se convenceu. Mas hoje em dia ele deixa a gente chamar assim.

Alice - Como você tem toda essa relação de tradição de comicidade, fala um pouco dos nomes. Eu lembro que quando comecei a entrar mesmo na área de circo, já há vinte e tantos anos, aprendi algumas coisas. Por exemplo, chegava um pessoal no canto e dizia “não fala corda-bamba”, no circo ninguém usa “corda-bamba”: é arame! Não se fala palhaço. Se o cara chegar no circo pedindo emprego e disser que é palhaço, ninguém dá. Tem que dizer “eu sou cômico”. Então, essas nuances estão claras na fala sobre seu pai. O que é comediante, o que é cômico? Fala pra gente um pouco de como você vê isso.

Kuxixo - Criou-se já há muito tempo, esse negócio do clown e de palhaço, que eu acho uma idiotice. Em uma oficina de palhaço, aí do nada, um aluno falou: “qual é a diferença do clown e do palhaço?” Isso me irrita um pouco. “Você fala inglês?” perguntei e ele respondeu que não. Minha pergunta seguinte foi: “como se fala clown em português?” “Palhaço”. Então acabou! Cada um tem seu tempo e seu estilo. Dentro de um circo, mesmo ele não sendo, vamos dizer, um clown, recebe o nome de clown para um palhaço mais teatral. Mesmo se dentro do circo seja palhaço, existem vários tipos de comicidade e de estilo. O meu pai pende para o humorista caipira, meu avô Pirulito era palhaço, com um estilo mais ingênuo. O seu Aleixo Remelexo Vicente Corrêa entrava com seu: “Agora vem aí a alegria do circo, um humorista diferente Aleixo, Remelexo, balança o seixo e entorta os eixos”. Ele era negro, a maquiagem era umas pintinhas brancas, só que tinha umas pintinhas pretas também, e ele não entrava se não fizessem as pintinhas pretas. Meu pai falava: “Vamos Aleixo!” E ele: “Calma que falta um detalhe, as pintinhas pretas.” E o meu pai enchia o saco dele: “Quem é que vai ver?” “Eu mesmo”, ele respondia. Era mais malandro. E cada um também tinha um tempo de trabalho, um tempo pra comédia. Mas se alguém perguntava: “Quem é o palhaço do circo?” Dizia-se: “O cômico da companhia é tal”. Usava-se o palhaço do circo, mas se complementava, emendando: “O cômico da companhia é tal”.

Alice - Você acha que o estilo é pessoal ou não é, por exemplo, da Companhia, do tipo de repertório?

Kuxixo - Acho que é um conjunto de coisas. Eu tenho uma coisa que é minha. Até meus 18, 19 anos trabalhei com Ricardo, com o cômico. E sempre gostei do Chaplin, que tem esse parâmetro entre o circo e o teatro. Você ri com ele o tempo todo, só que todo o tempo ele é gracioso. Ser gracioso é ser diferente de ser engraçado. Eu já gostava muito dele e na minha família sempre teve a tradição do cômico acrobata, que é o estilo em que o palhaço faz tudo, tem que fazer um pouquinho de todos os números, tem que ter uma forma física boa e utilizar a acrobacia pra tudo. Então, meu pai mesmo, embora seja diferente o estilo dele, era acrobata. Ele era mais ou menos assim como o Mazzaropi. Imagina o Mazzaropi fazer, do nada, um mortal. Isso não era uma técnica que ele usava, mas era uma técnica que ele sabia e entregava na hora certa. Agora, pela família da minha mãe, sou descendente de Polydoro. E ele, como todo mundo sabe, entrou para o circo olímpico porque era ginasta e se tornou acrobata. O que tem uma pequena diferença... De acrobata ele se tornou palhaço, de palhaço ele se tornou ator... A geração do Polydoro começou a brilhar assim. Como venho do circo tradicional, existe uma coisa que é o “ir fazendo”. E no circo-teatro você que tem que fazer mesmo de tudo. Então, uma hora você faz o palhaço, outra hora você faz o galã. Você acaba aprendendo e utilizando isso. Se você faz o galã à noite, é uma coisa. Se você faz um galã na matiné, você é o príncipe, o Jerônimo, você é o Zorro. Então, você tem que saltar, tem que lutar. O circo-teatro é muito completo. Eu adoro circo de variedades, tanto é que esta foi a minha opção. Sou palhaço porque tenho a opção de usar minha técnica de atuar. Mas quando vou pra casa... Meu pai tem o circo na Prefeitura de Sorocaba. Na década de 60, o Circo Guaraciaba bagunçou Sorocaba. Tanto que quando o circo mudava de um lugar pro outro, a própria Prefeitura se encarregava de colocar uma linha de ônibus que deixava o povo na porta do circo. Quando o circo, se tivesse uma existência ainda, comemoraria 60 anos, a Prefeitura de Sorocaba montou um circo novo e deu o nome de Circo Guaraciaba, e meus pais estão trabalhando lá. Quando eu vou pra lá ainda participo dos espetáculos.

Alice - Você está falando uma coisa muito interessante, falando do circo-teatro. Essa relação do palhaço com o ator é muito importante. É verdade, o palhaço tem que ter um lado ator muito forte. E o que acho interessante no seu trabalho é misturar isso com a acrobacia, com a gag física, que é uma coisa que exige domínio da técnica e que você faz muito bem.

Kuxixo - Eu gosto da sutileza, só que tem que ter o contrapeso. Você precisa saber fazer tudo.

Alice - Quanto tempo tem o número que você faz agora no Beto Carrero?

Kuxixo - Depende. De uns dez anos pra cá, trabalho muito com essa coisa de buscar platéia. No Brasil, um dos primeiros a fazer isso, fui eu, adotar o apito pra tudo e trazer a platéia, que é diferente uma da outra. E o público de fora é muito diferente do brasileiro, que é engraçado, é faca de dois gumes. É a platéia mais calorosa que tem pra trabalhar, o que você faz agrada, e ao mesmo tempo, é muito exigente. Aqui você tem que ter começo, meio e fim; lá fora você não tem que necessariamente ter o final, e muitos não tem nem o começo. O palhaço entra, vai desenvolvendo, são palhaços muito bons, e o público começa a rir. Quando acaba, o cara vai olhando... e sai. Aqui não, aqui tem que ter começo, meio e fim e o final tem que ser paulada. Muita gente chega pra mim e fala: “você é palhaço? Conta uma piada”. Não é que palhaço não conte piada, mas a especialidade dele é fazer palhaçada. É colocar o chapéu, é fazer a cascata, fazer uma acrobacia, jogar malabares. Então, o palhaço não conta piada, ele faz piada...

Alice - É piada!

Kuxixo – Cair e levantar é uma coisa que ilustra perfeitamente o que é palhaço. Quando trabalhava no circo-teatro se falava baixo cômico, que é o humor menos sutil usado em peças na hora certa.

Alice - Tirando seu pai, quais palhaços você cita como influência na sua carreira?

Kuxixo - É difícil falar porque na família eu tive um monte de exemplos e ninguém se atrevia a fazer palhaço com a idade que eu fui fazer. Meu pai, que tinha um estilo muito diferente, o compadre do meu pai, tio Jaime, Chupeta, também foi uma influência, mas ele fez uma coisa que briga dentro de mim. Ele parou por achar que seu tempo tinha passado e que a platéia não conseguia mais acompanhar o modo de trabalho dele. É que o circo-teatro foi ficando cada vez mais marginalizado e, na sua atuação como palhaço o público não entendia o tempo dele, não chegava na piada que ele estava fazendo. Seu Aleixo, meu primo, que também tem um estilo bem diferente. Tio Pimpão, que é meu compadre. Acho que todo mundo já ouviu falar do italiano David. Acho muito bom, mas não porque é engraçado, ao meu ver ele é gracioso porque é técnico, ele sabe fazer a graça na hora certa e tem uma imaginação... Mas a minha referência e influência é Chupetinha: ele fala, ele cai, e nem é tão acrobático assim. E tem outro palhaço que eu adoro, ele já é acrobático, o Tintin. É chileno. Mas está aqui há muito tempo e é tão brasileiro. Antigamente os palhaços eram todos bons porque tinham que ser atores também, que saber o palhaço e ainda fazer dois números. Ele tinha que ter sempre algo a mais. Por isso que eu falo pra você, antigamente o ruim era o bom, os outros eram os melhores. Esses melhores não faziam só palhaço. E só palhaço, no circo-teatro, significa que ele canta, dança, sapateia, atua, faz um monte de coisas. Já no circo de variedades, você tem que ter o seu número e fazer o palhaço, ou então sua mulher entra pra dançar no palco... O Chupetinha, desde que eu conheço, era só palhaço...

Alice - Ele valorizou o palhaço profissionalmente...

Kuxixo - Ele mostrou o que era e foi valorizado, porque quando apareceu já era uma época em que o palhaço tinha decaído.

Alice - Era difícil você ver um número de palhaços, só entradas...

Kuxixo - Você podia fechar os olhos e ouvir: todos estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Eram reprises de gags, o palhaço entrava, trepava, sentava na cadeira e caía. Ele era o enchedor de lingüiça... Que são necessários e podem ser bons. De repente, quando ele apareceu, mostrou que podia ser valorizado só como palhaço. Porque no circo o palhaço pode ter o mesmo valor que o globista, que o domador, que o elefante... Adoro ele.

Alice - Os bons palhaços acabam sendo únicos, você pode ver o Biriba, o Biribinha, o Chupetinha, com a mesma reprise, e a graça é você ver como cada um tem seu tempo pra desenvolver uma coisa nova no número. Um usa um jeito de falar, uma voz diferente, cada um faz de um jeito. Mas se você simplesmente se acomoda, simplesmente quiser fazer um esquete que vai agradar, agrada, mas não marca, não fica.

Kuxixo - Não pode faltar ao palhaço a identidade. O elo entre os palhaços hoje é muito maior que o antigo, é que o antigo era muito mais forte, era difícil de ser quebrado. E o palhaço buscava alguma coisa nova a partir do aprendizado que vinha com os antigos, mesmo dentro da família. Antigamente demorava pra você ser palhaço e mais ainda pra ser reconhecido. Hoje, a gente começa cada vez mais cedo e tem muita informação. Agora, no final das contas, quem vai definir se o trabalho está correto, por mais que tenha críticos, é você mesmo. E procurando a sua verdade, o palhaço encontra autenticidade.

terça-feira, 3 de março de 2009

Sérgio Machado entrevista Tchesco, o sensacional


Sérgio: Meu sonho é andar de sunga, com um cartão de crédito.
Tchesco: Ilimitado...

Sérgio - É um prazer inenarrável estar aqui entrevistando hoje um grande amigo e um excepcional palhaço. Um dos poucos palhaços que me faz rolar no chão de rir. Um palhaço que tinha tudo pra ser ruim, mas é um dos melhores palhaços que conheço, que é o meu grande amigo Tchesco. Uma piadinha, logo de cara?
Tchesco - Você sabe por que tem cama elástica no Pólo Norte?
Sérgio - ?
Tchesco - Pro “urso polar”.

Sérgio - Tchesco, fala um pouco da tua origem, do teu nome...
Tchesco - Bem, tudo começou quando eu tinha três anos de idade. Eu era um menino pobre que morava na favela e o meu brinquedo era o meu corpo. Dava cambalhotas, era meio louco, pulava de cima do muro... E eu queria mais, sempre almejava fazer mais acrobacias, cada vez com maior grau de dificuldade. Até que um dia, eu conheci um artista de rua chamado Tigre, que fazia show na Cinelândia. Bateu uma afinidade com ele e a gente começou a fazer shows juntos. E logo em seguida eu conheci o mestre Aporine e o mestre Mestiço que eram acrobatas, faziam kung-fu na rua. E eu ficava enlouquecido com as acrobacias que eles faziam e fiquei freqüentando, uma hora pegava uma aguinha, levava uma bolsa pra eles, e no finalzinho eu dava meus saltos, e ganhava um dinheirinho no final do dia. E um belo dia o Aporine me levou na Escola de Circo, na Praça da Bandeira, aqui no Rio de Janeiro. E eu fiquei encantado pelo mundo do circo. Vi as técnicas de acrobacia, como era a postura, o braço esticado. Porque eu saltava, mas não tinha a técnica. Eu tinha facilidade, mas não tinha a técnica. E quando fiz 17 anos optei por sair da rua e freqüentar a escola de circo, porém não consegui, porque eu não tinha nenhuma renda. Pra ganhar dinheiro era só fazendo show na rua. Durante o dia, da hora do almoço até à tarde eu ia pra Escola de circo e da tarde pra noite eu fazia roda na rua. E aí fui fazendo Escola de circo, frequentei quatro anos, fiz o curso completo. Eu tinha um número aéreo muito legal, com duas assistentes. Quando faltava um ano pra terminar a escola, uma casou e outra foi trabalhar numa empresa e aí eu fiquei sozinho, foi aí que me dediquei mais ao palhaço. Até então eu levava o palhaço só como um esporte, uma brincadeira. Aí eu descobri a minha veia cômica, que eu tinha essa afinidade com o público, essa facilidade.

Sérgio - E hoje em dia como você diria que é o palhaço Tchesco?
Tchesco - Meu estilo é o tradicional, com maquiagem, roupa colorida. Porque pra criança o palhaço tem que parecer com um boneco. Não pode ser parecido com um ser humano. Meu palhaço é um acrobata que entra dando aquele duplo salto mortal, só que em vez de ser bonito e elegante, é com as pernas arreganhadas, rindo, e às vezes até perdendo as calças no meio do salto. E esse é o palhaço da comédia física, com muitas topadas, caio de uma mesa...

Sérgio - Na Escola de circo você teve a oportunidade de trabalhar com vários mestres...
Tchesco - Meu grande professor de parada de cabeça foi o Abelardo Pinto, que era sobrinho do grande palhaço Piollin, que era também Abelardo Pinto. O nome dele, na verdade, é uma homenagem ao tio. Eu tinha uma deficiência visual, e aí ele descobriu que eu tinha um equilíbrio, não era flexível, mas tinha muita força. Eu aprendi a parada de cabeça e subo uma escada com a cabeça, sem as mãos. Ele que descobriu que eu tinha essa facilidade. O biotipo nordestino, cabecinha chata... (risos)

Sérgio - O que é bom pro número...
Tchesco - E aí eu aproveitei isso. Quer saber como eu usei a primeira maquiagem?

Sérgio - Fala aí.
Tchesco - Foi no Circo Bartolo, do seu Walter Bartolo. Tinha um palhaço chileno chamado Guarapiti, pai de dois palhaços muito famosos, o Tin tin e o Peluca. Ele foi a primeira pessoa que pediu pra eu usar uma maquiagem adequada com o meu rosto. Porque nas minhas brincadeiras eu emitia muito som e ele achava isso interessante: “poxa, você tem que usar uma maquiagem que destaque e não que esconda seu rosto. Porque na verdade não é para você se esconder atrás da máscara, e sim pra aparecer na frente da máscara.” E esse palhaço eu devo a ele, que descobriu o desenho certo pro meu rosto.

Sérgio - E o figurino?
Tchesco - Toda roupa do palhaço acrobata tem que ser larga e ter bolso, porque a gente tem que ter uma piadinha no bolso. Deu alguma coisa errada no espetáculo, no circo tradicional, o palhaço entra e tira o veneno, porque o espetáculo não pode parar. Se, numa cena, um artista cai ou acontece um problema técnico, a gente vai lá e dá o recado. O palhaço tem que tirar proveito. Ele entra com a cadeira, olha pra um lado, olha pro outro, faz uma parada de mão na cadeira, deixa cair o chapéu, quando vai pegar o chapéu, cai de cara na cadeira, finge que bateu com a boca, deixa cair os dentes... depois faz de novo e consegue, e aí ele ganha uns aplausos do público. Isso toma tempo e ajuda a técnica a consertar o que deu errado.

Sérgio - E como é o teu processo de criação?
Tchesco - Eu tento aprender com a influência de outros palhaços. E gosto muito do Alex Popov, um palhaço russo que tem um ditado muito bonito: “fazer o difícil parecer fácil.” E ele atua até hoje, é muito criativo, faz números divertidos... como ele diz: “o palhaço não trabalha, se diverte”.

Sérgio - Engraçado você falar isso, porque eu trabalho com uma outra idéia que é meio contrária a sua. Como eu não tenho essas habilidades, eu procuro fazer o “fácil parecer difícil”.
Tchesco - Eu gosto muito também de um palhaço alemão: Kroke.

Sérgio - Não é Gropi, não?
Tchesco - Kroke. Quando ele entrava, falava: “Jack Jack”. Tinha um trejeito muito engraçado. Porque naquela época os políticos davam bastante ênfase aos seus discursos e o Kroke fazia comédia em cima disso... e por felicidade tem um site na internet que tem as coisas dele.

Sérgio - Kroke. Preciso conhecer esse cara. Aproveita então, já que você falou disso, pra falar um pouco dessa tua experiência na Europa. Mas eu ainda queria saber sobre o seu processo de criação: como você prepara um número? A idéia vem e você sai preparando?
Tchesco - Como trabalho em cima da comédia física, é bem físico mesmo. Sempre começo um espetáculo com o que tenho de mais interessante visualmente. Chego numa platéia e tenho que ter o primeiro contato com o movimento. Geralmente uso a acrobacia, mas quando entro com o malabarismo, com dança e música, faço uma atmosfera legal e o público já parte pro meu lado. Por exemplo, você falou da Europa e do Brasil. Lá na Europa tenho que receber o público antes de começar o espetáculo, se não eu não aconteço. Direto, pra mim, não funciona. Tenho que estar na platéia, na porta principal recebendo o público. Já entro fazendo umas gags, uns trejeitos, e isso dá uma atmosfera legal, depois vou pro palco. Já no Brasil e aqui na “sudamérica”, em geral, faço um malabarismo, entro saltando, e já pego logo a platéia pra mim. É interessante isso.

Sérgio - Aproveita esse embalo e fala um pouco dessa tua experiência na Europa, na América.
Tchesco - Eu me formei em 1990 na Escola Nacional de Circo. Fui trabalhar num circo em Niterói, aqui no Rio. E tinha um empresário alemão vendo o espetáculo. Ele foi conversar comigo e foi até engraçado, porque eu não falava nenhuma língua na época. Ele chegou falando engraçado. Passou um tempo, ele voltou com um contrato e marcou minha viagem pro ano seguinte. Em 93 eu viajei, e daí por diante fui viajando 11 anos consecutivos. Trabalhei em 14 países, 9 parques de diversões. Trabalhei no Ringling Bross, no Estados Unidos, o maior circo do mundo. Fui o primeiro palhaço brasileiro a trabalhar lá. E continuei minha carreira, fiz eventos, filmes, festas. Sempre que tinha algum trabalho que precisava de acrobacias, como sou um palhaço acrobata em atividades ainda...

Sérgio - Conta uma história curiosa aí pra gente. Você já me contou tantas e são tão interessantes. A mais engraçada, inusitada, alguma confusão.
Tchesco - Tem várias. Por exemplo, no Rio de Janeiro teve um espetáculo, terminava muito tarde, nessa época eu ainda morava na favela, Parada de Lucas, e era muito perigoso. Tudo bem, fui entrando assim na favela, com a minha bolsinha, civil, a paisano. Tinha uma patrulhinha atrás do muro. Quando eu passei, eles: “pára aí, pára aí, vem cá, vem cá”. Fui, sou morador, tinha que passar por ali... “abre a bolsa, abre a bolsa”. Forte pra caramba. Eu, assim, olhando, abri a bolsa. Aí ele começou a mexer nas minhas coisas de palhaço, viu colorido, brilho, virou pra mim e falou: “muito bonito, né travesti, chegando da batalha?!” Eu: “não, não. Sou palhaço!” “Que é, tá me chamando de palhaço? Vai embora seu sem vergonha!” Nem respondi muito, fui embora. Quando eu entro na favela, os meninos viram a polícia e começaram a atirar. Eu voltei correndo e nisso os policiais viram os meninos atirando e pensaram que eu era um dos meninos e atiraram. Eu me escondi atrás de uma pilastra... Foi um momento divertido que já virou parte da minha vida, mas por um bom tempo... Graças a Deus, depois que eu viajei pra Alemanha, e comendo miojo um ano, consegui comprar uma casa. Mas foi uma época boa também na favela.

Sérgio - Você já trabalhou em vários circos?
Tchesco - Trabalhei com a família Bartolo, no Torricely, no Reality Circus, no Sul...

Sérgio - Sempre por temporadas?
Tchesco - Por temporadas e parques de diversões.

Sérgio - Conheceu muitos “mefiés”.
Tchesco - O que é “mefié”? (Risos).

Sérgio - Eu perguntei isso...
Tchesco - No circo tradicional, eles chamam mefié de mestre de chicote e eu trabalhei com bastantes. Com grande Avelino, que trocava de roupa três vezes cada número. Ele tinha em média umas 20 a 30 peças de roupa dentro do mesmo espetáculo.

Sérgio - Quem foi a figura com quem você mais trabalhou?
Tchesco - Eu rodei muito, rodei bastante. Trabalhei em circo pequeno, em circo grande, em circo que recebia, circo que não recebia...

Sérgio - Eu queria que você falasse um pouquinho da sua relação com o Anjos do Picadeiro.
Tchesco - Conheci a galera na Escola de Circo. Márcio, Regina, Angélica, João, Shirley. E eles tinham disposição. Naquela época eram casca grossa, caíam dentro do ensaio, saíam pingando. Aí a gente fez amizade, depois eu vi as meninas na Suécia. Trabalhei uns cinco anos na Suécia. E, desde o primeiro encontro, sempre participo do Anjos, graças a Deus sempre me convidam...

Sérgio - Como é ser um palhaço no mundo louco de hoje?
Tchesco - Hoje em dia temos mais oportunidades de trabalho, mas a concorrência também é muito maior e a gente tinha mais platéias antigamente. Muitos estrangeiros estão vindo pro Brasil. Acredito que a gente vai ter bons palhaços no futuro, porque a galera está se entregando de corpo e alma mesmo. A pessoa hoje em dia não quer ficar só na festinha de aniversário, ela quer o palco. O Rio de Janeiro ainda está se preparando pra dar essa estrutura, mas no Sul já acontece bastante espetáculo de rua, no Nordeste também.

Sérgio - Como é pra você a relação com a platéia? Qual o sentido que ela pode dar ao seu palhaço?
Tchesco - Criança é criança em qualquer lugar do mundo. Quando gosta, ela ri, ela se entrega, você vê no olhar da criança se ela gosta ou não. Minha relação é boa quando tem crianças, elas gostam do meu trabalho.

Sérgio - E você tem uma preocupação com o que está oferecendo à platéia? Qual é a tua idéia? É fazer rir? Rir é mais importante do que tudo? Ou você quer dizer mais alguma coisa?
Tchesco - Geralmente, as pessoas me perguntam se eu passo alguma mensagem no espetáculo. Não. O que eu gosto é que as pessoas participem, que elas sorriem muitas vezes dentro do mesmo show, se tenho 300 gags, elas tem que rir nas 300. Claro que no final é legal passar uma mensagem, porque o importante ali é divertir. É eu me divertir, eles se divertirem...

Sérgio - Você acredita que o riso tem poder? E que poder é esse que o riso tem?
Tchesco - O poder de transformação. Você está num ambiente calmo, triste, quando chega um palhaço já muda, quando entra o palhaço, ele transmite alegria. E quem tem esse poder é o palhaço. Somos figuras totalmente distintas do cotidiano.

Sérgio - Você é muito autocrítico no seu trabalho?
Tchesco - Demais. Sempre quero fazer o melhor. Num show eu chego a levar quatro roupas, na hora não sei que roupa vou colocar. E eu sempre estou mudando. A cada três anos eu tenho que mudar tudo, roupa, figurino... não consigo me manter num estilo só...

Sérgio - E você experimenta, viaja, vê o que funciona, não funciona?
Tchesco - Trabalho muito sozinho hoje em dia e estou sempre aperfeiçoando os números.

Sérgio - O palhaço Tchesco, o que é?
Tchesco - Eu sou um cara que quero brincar, me divertir e trazer alegria para o povo, principalmente para as crianças. Todo mundo tem seu alvo, eu prefiro trabalhar para a criança. Se eu fizer um espetáculo sem crianças na platéia, acho que não agrado, não funciono, o meu trabalho não acontece.

Sérgio - Conta uma piada então.
Tchesco - Três homens estavam prontos pra morrer na cadeira elétrica: um era árabe, outro americano e outro português. O guarda perguntou para o árabe:
_ Você vai para a cadeira elétrica, qual é seu último desejo?
_ Ah, o meu último desejo é rezar para o meu Deus.
_ Então reze. Ele ajoelhou e _ Hala, Hala. Sentou na cadeira elétrica, o cara ligou, não funcionou. Nos Estados Unidos, uma vez que a cadeira não funciona, você está livre.
_Ehe ehe uhu.
O guarda falou pro americano:
_Sua vez, o que você quer fazer?
_Ora, quero fazer como o árabe, quero rezar pro Deus dele. Hala Hala. Sentou na cadeira, não funcionou.
_Você também está livre.
_Oh my god!
O guarda, então, falou pro português: _ E você?
_Ora, se deu certo com o árabe e com o americano, vai dar certo comigo. Ele ajoelhou e : _ Hala, Hala, a tomada está desligada.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Por um riso carnavalesco

Quem esteve no Anjos do Picadeiro 7, em dezembro passado, vai lembrar que Victor Quiroga Pérez falou bonito na mesa de debates Você está rindo de quê?


Ele nos prometeu o texto para publicação aqui no blog, mas acontece que tive que ir ao Chile para buscá-lo. Por isso a demora! Mas vale a pena lê-lo ainda, porque seu texto traz visões diversas e complementares de vários pensadores, poetas chilenos, e uma curiosa descrição de Cristóvão Colombo dos costumes dos povos das américas. A sensibilidade de Victor costura essas falas de diversas épocas numa bonita algaravia sobre o riso.



Com vocês, o Victor:

En el principio fue la risa; el mundo comienza con un baile indecente y una carcajada, basta reír para que el universo ría.

La risa es propia del hombre, del que vive; quien ríe demuestra estar vivo;… la entrada en la vida está acompañada de la risa. Según Plinio,…, el neonato ríe cuarenta días después de nacer para tomar posesión formal de la vida que hasta aquel momento había estado en fase crítica… Estamos, pues, en presencia de un valor intrínseco de la risa; no es únicamente un acto que acompaña la entrada en la vida, sino que tiene la capacidad de suscitarla. El concebir la risa como donante de vida se remonta a los albores de la vida del hombre sobre la tierra…. En el ‘reír’ de la vida sobre la muerte, es ahí donde arraiga el fundamento último del placer del hombre, imagen y participación del placer de Dios.

“La risa ritual del folclore tendría este carácter mágico productor de la vida. Esa risa niega la muerte como final… La fiesta, el espectáculo cómico popular, representa la esperanza en lo nuevo, en la renovación, esto es, la esperanza popular en un mundo mejor…. La risa popular expresa una desconfianza y una oposición frontal al mundo oficial, el mundo de la desigualdad. Esa actitud no se funda en un espíritu autoritario y ahí reside su grandeza.”
(Luis Beltrán: La imaginación literaria. La seriedad y la risa en la literatura occidental, Barcelona 2002, 248, 251).

Como escribiera Cristóbal Colón: “Certifico a Vuestras Altezas que en el mundo creo que no hay mejor gente ni mejor tierra; ellos aman a sus prójimos como a sí mismos, y tienen una habla la más dulce del mundo y mansa, y siempre con risa. Ellos andan desnudos, hombres y mujeres, como sus madres los parieron; mas crean Vuestras Altezas que entre sí tienen costumbres muy buenas...” (Cristóbal Colón)

Esta es la risa ritual del folclore religioso: la risa de las mujeres-que-exaltan-la-vida, victoriosas sobre las fuerzas de la muerte. Por otra parte, tenemos “la risa moderna, la risa más débil, infiltrada por la seriedad… Para Bajtin la risa moderna ha perdido el momento regenerador, conservando únicamente el momento crítico y negativo.” (Luiz Beltrán, Ibid., 250).

¿Qué encontramos en el Chile de hoy?

Si nos ponemos en la perspectiva de las estéticas de la seriedad: en el mundo oficial del patetismo no existe ningún tipo de risa. Es el tiempo de la muerte, o de la indiferencia ante la vida. Quizás, como decía Erich Fromm, “cuánto hemos penetrado ya en el valle de la sombra de la muerte” (Erich Fromm, El corazón del hombre. Su potencia para el bien y para el mal, México 2006, 63). El mundo oficial del Chile de hoy es patético, está fundado en la estética de la seriedad. El patetismo, y su ideal: la belleza. La belleza del orden burgués: “Todas las manifestaciones del patetismo consisten, en lo esencial, en construir un héroe, un páthos. Patetismo es heroificación, un método de elevación del personaje que hace de él un héroe.” (Beltrán: 64). “[La] exaltación del héroe por la excelencia de unas virtudes serias y fuertes y por la belleza” (Beltrán: 69). El héroe es el triunfador, el “winner” de la tribu. Nos aproximamos al patetismo del Bicentenario: los “héroes” de la Nación, o los “grandes chilenos”. Todos seriotes. Hay que reírse de los “héroes”.


“La Modernidad es la etapa que peor ha comprendido la risa. Y la razón de esa incomprensión es lo poco dotada que ha estado esta época para la risa. El individualismo –el pensamiento moderno- resulta incapaz de percibir el espíritu regenerador de la risa y se conforma con la dimensión negativa: la burla. Para la Modernidad, risa es burla.” (Luis Beltrán, La imaginación literaria: 224). “La burla y la sátira se justifican como las únicas actitudes adecuadas para representar los discursos que materializan este mundo al revés, donde no se encuentra ‘nada que se parezca a la felicidad, sólo perversión institucionalizada’” (José Promis, Sátiras antropológicas, El Mercurio, 6.1.2008).

La risa tiene también una dimensión de poder, al convertirse en una manera de avergonzar e intimidar al otro, otra de sus estrategias es la negación burlona y burlesca del otro, que nos enfrenta a un reír intimidatorio tal como sucede con la burla del guerrero al enemigo o de la triquiñuela maliciosa a otro. Reivindiquemos el humor popular: el humor que retoma el folklore, la vida real del pueblo!!! Es el humor que proclama el triunfo del amor a la vida:

“Bueno dijo y se rió
De puro gusto sería
Claro que le gustaría
Como no dijo que no.”

Risa carnavalesca, regenerativa, fecunda!!!
Nada de burguesa, nada de astuta, nada de ‘primermundista’.Que se ubica en la estética de la risa ritual del folclore: de la regeneración vital del mundo.

Nuestros poetas cantaron:

Pablo Neruda dijo:
“En su rostro tostado en que la sangre india predominaba como en un bello cántaro araucano, sus dientes blanquísimos se mostraban en una sonrisa plena y generosa que iluminaba la habitación.” (Confieso que he vivido).

Es la risa que “abre todas las puertas de la vida”: “Quítame el pan, si quieres, / quítame el aire, pero / no me quites tu risa.

Gabriela Mistral
“Pero el mar, que ignora la limitación, es el elemento gozoso, es la materia feliz...
No hay alegría que supere a la del mar... Ríe como mil niños

Vicente Huidobro
Venía hacia mí por la sonrisaPor el camino de su graciaY cambiaba las horas del díaEl cielo de la noche se convertía en el cielo del amanecerEl mar era un árbol frondoso lleno de pájarosLas flores daban campanadas de alegríaY mi corazón se ponía a perfumar enloquecido….

Nicanor Parra:
…….En cambio, el tony (payaso) es la inocencia, la libertad, es la humildad. Graciosamente, en el circo pobre vence la inocencia, al revés de lo que ocurre en el gran mundo de la literatura de Occidente, donde vence la astucia. El héroe por antonomasia es Ulises, el hombre de los mil recursos. Pero extrañamente aquí la que vence es la inocencia… y además el tipo llegar a ser tan inocente que ni siquiera se da cuenta de que ganó.”

El amor a la vida sólo puede vencer con la risa, desde la risa!!!

El Pintor Roberto Matta dijo:
“El arte es una especie de SOS (Save our soul) de todas las almas, para APRENDER EL AMOR QUE SE RÍE. REÍRSE EN AMOR, ES REÍRSE DE LA MUERTE PARA VIVIR LA VIDA. ESE QUE SABE REÍRSE EN EL AMOR, PUEDE SALVARSE… El amor es una especie de creación, parecido a estas estaciones espaciales que se hacen hoy día, para ver y reírse. El placer de reírse puede interrumpir las culpabilidades que transforman lo que la gente llama ‘la vida’, en una vida que no sabe vivir’


Víctor Quiroga Pérez
Diciembre del 2008.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Márcio Libar comenta o Anjos do Picadeiro 7

Comentário 1
Desde a primeira vez que me vesti de palhaço durante um cortejo circense realizado na “ECO 92” até aqui, já se passaram 16 anos, sete edições de Anjos do Picadeiro, seis edições de FESTICLOWN, duas edições do Palhaçada Geral em São Paulo. Enfim , a cada ano surge um novo encontro em algum lugar do Brasil, sem contar com os diversos espetáculos e números que foram criados nesse período, além das diversas publicações sobre palhaço entre livros, revistas e blogs.

Quando comecei não havia nada além de alguns poucos grupos que já se arriscavam nessa linguagem, tendo o Luiz Carlos Xuxu e a Intrépida como pioneiros, Irmãos Brothers. Nesse momento as Marias da Graça e o Anônimo começavam a dar seus primeiríssimos passos nessa direção.

Chegando atrasado ao último debate dos Anjos às 14:00h porque tinha acabado de acordar. Ainda com o olho ardido e o cérebro em marcha lenta, ouvi alguém dizer que os debates teriam que ter horário nobre porque pela manhã ninguém ia e eu era um típico exemplo disso. Não fui a nenhuma das mesas, pois durante os anjos eu me comporto como se fosse carnaval e nunca durmo antes do sol.

Porém, me consolava em pensar o seguinte: Será que todos os fazedores desse ofício, entre criadores, pensadores e eternos aprendizes deram conta de ler tudo que já foi produzido durante esse tempo? Não seria melhor que todos lessem o que já foi publicado ao invés de reivindicar horário nobre para os debates? Eu mesmo ainda não li tudo. Quem já leu? Pra quem produzimos tantos pensamentos?


Comentário 2
Durante a faixa de gaza, vimos um desfile de palhaços vestidos mais ou menos da mesma forma: roupas desajustadas, mas bem acabadas, chapéus de feltro, casacas, sapatões e o indefectível nariz de látex vermelho (pois agora eles são acessíveis). Invariavelmente levam uma malinha, fazem gags, tropeções, às vezes também aparece um girassol, além de usarem um tempo dilatado e lento pra chegarem aonde tem que chegar, como se essa fosse a verdade dessa liguagem.

Naquela noite, os melhores números, coincidência ou não, não se apresentaram dessa forma, como o numero da Odalisca (Fabrício) e o Bin Laden Faquir (Lucas), resultado: triunfo. Em dado momento, Claudio Carneiro, Marcio Ballas e Ésio Magalhães, foram pra fora da lona, ensaiaram um numero em dez minutos. Uma luta de boxe entre um lutador cego, um surdo e o juiz. Resultado: o público acordou de sua sonolência e riu aquilo que ainda não havia rido durante aquela noite.

Porque será que não chamaram a macaca pra eles três? O que realmente interessa ao público quando o palhaço está em cena? Seu figurino, seus desvios e tempo dilatado, suas gags lugar-comum, a concepção artística de seu número, ou o fato de estarem jogando vivo e intenso na cena, no aqui e agora? É pra se pensar, mas eu fico com a última opção. Se estiver tudo junto ainda melhor, mas aí estamos falando de excelência.


Comentário 3
Ainda sobre a Faixa de Gaza. Essa programação é filha da tradicional “Noite dos Renegados”, muito comum nas convenções de malabaristas. Um espaço para aqueles que não participam da programação oficial. Porém, com o tempo, os renegados passaram a considerar esta a sua noite de gala. Inclusive essa era uma piada dos apresentadores que a chamavam de “Faixa de Gala” o figurino preto, fraques e chapéus evidenciavam tal intenção.

Porém, quando surge o elemento da macaca a coisa desanda ainda mais. Pois se na minha crença pessoal o palhaço deve manipular e ter poder sobre o público, durante a faixa de gaza ele está submisso a um público que se dá ao direito de expulsar de cena um número que nem sequer chega a começar. Nesse momento há uma inversão dos papéis e o público passa a controlar os palhaços e é claro, tem prazer nisso.

Por isso usei da minha habitual arrogância, que tenho feito o possível pra controlar na medida em que envelheço, e enrrabei a macaca no picadeiro. Desculpe galera...ela merecia.

Se Faixa de Gaza é uma guerra, então que os apresentadores, macaca, artistas e público estejam preparados para o confronto. Para isso é preciso que tanto o apresentador como a macaca tenham convicções artísticas. Talvez ao ponto de identificar na platéia quem chamou a macaca, dirigir-se a ele e perguntar por que ele acha aquilo, quem na platéia pensa como ele, se o artista pode continuar ou se aquilo é uma manifestação isolada de algum brincalhão e quem sabe fazer a platéia chamar a macaca pra ele.

Seja o que for a Faixa de Gaza comprovadamente, é cada vez menos um espaço para aprendizes. Melhor que volte a ser Noite dos renegados e se crie outro lugar para a galera se divertir no fogo cruzado.

Eu sugiro um jogo que tenho usado nas minhas oficinas que eu chamo. “1 minuto pra gente rir” o sujeito, dupla ou trio, pode fazer o que quiser, até contar piada, desde que o público ria, se ele conseguir seu tento em 10 segundos pode sair e entra o próximo. Em uma hora poderíamos ver mais de 60 tentativas. É dinâmico, divertido e um teste de fogo que une amadores e profissionais. O que acham? Fica a pilha.

Comentário Final
Na edição de 2000 quando escreveu seu polêmico manifesto intitulado “O matador de palhacinhos”, Hugo Possolo pôs a cara às tortas e saiu bastante arranhado no contexto geral, muito embora estivesse sinalizando algo que naquele momento tenha sido bem compreendido por algumas pessoas, inclusive por mim, que apesar de gostar de polêmicas, jamais teria coragem de me confrontar daquela forma, por respeitar as diferenças.

Porém, quase uma década e cinco edições depois fica mais claro para mim aquilo que ele alertava. O que ele queria dizer basicamente era que não adiantava botar um nariz, pintar a cara, usar sapatão, fazer uma voz que não é sua e achar que é palhaço.

A maioria dos melhores números e espetáculos do encontro não utilizava nariz e nem os figurinos convencionais mencionados por Hugo. Chaco, Jango, Avner, Leo Bassi não usam. Mas se percebermos bem, os Irmãos Saúde usam, mas com figurinos que lembram os garis do Rio de Janeiro, a própria Maku utiliza um bem discreto.

Mas o que dizer do Luiz Carlos Xuxu, do Ésio, do Rick e Simi do Lume, do Cuti-Cuti, que partem mais ou menos de uma mesma concepção de costumes. E a Lili do Seres de Luz que usa um nariz vermelho enorme ao lado de Abel que por sua vez abriu mão dessa pequena máscara?

O que eu quero dizer é que o que está em jogo é a capacidade que cada palhaço tem de comunicar sua alma e sua visão pessoal de mundo, de comover. Quando vejo se espalhando pelo Brasil um monte de palhaços iguais uns aos outros, chego a ficar um pouco constrangido e até certo ponto culpado. Penso: caraca! Nós ajudamos a criar essa distorção.

Então para não parecer que estou defendendo este ou aquele estilo, prefiro terminar dizendo que a culpa não é do nariz, pois no final de tudo, o importante é a arte, “A Nobre Arte do Palhaço”. Aliás, quem leu? Dizem que é ótimo.

DESTAQUES
Sempre gosto de destacar o melhor entre os que eu vi e como sempre eu conheço a maioria dos trabalhos que ali estava como Jango, Avner, Chaco, Maku, o italiano Stephano e sua mulher brasileira Rose que triunfaram na Fundição.

Porém meu destaque vai para:

* O número do Guga, o acrobata na gala do Jango
* A brilhante obra dos parceiros do La mínima, sob a fina direção de Álvaro Assad em A Noite dos Palhaços Mudos
* O Espetáculo Noites de Parangolé do Teatro de Anônimo com as brilhantes participações de Silvia Machete, Claudio Carneiro e Sergio Sergio.
* A Noite de Gala dirigida por Hugo e Álvaro Assad na Lona Crescer e Viver (votando em causa própria)
* E o prêmio revelação vai para: Átila, o príncipe da brutalidade com o Fabrício Dornelles e direção de Sérgio Sérgio.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

LA MÍNIMA E O EXCÊNTRICO AVNER

Dentre os espetáculos que assisti neste Anjos, dois deles tiveram um acalorado aplauso no fim: a apresentação do LA MÍNIMA e o excêntrico Avner. Não quero e nem vou iniciar aqui um termômetro (aplausômetro) com único fim de teste de audiência. Mas a questão é que foi real. Fato. O público se empolgou e gostaria de pensar um pouco sobre estes dois espetáculos.

Existem festivais que podemos sentir quando o artista está mais antenado na lógica do próprio festival, do público, dos curadores e dos jurados (quando existe mostra competitiva) e que traz para a apresentação uma certa estratégia que visa quebrar as outras apresentações com um elemento surpresa... algo que distoa dos outros artistas. Esta característica perseguida por alguns artistas não me parece sincera. Ao contrário, parece coisa de quem quer bancar o esperto e "inovar". Nada contra as inovações. Portanto prefiro me deparar com aquele artista que faz o que sempre fez e que não abre mão de sua história, sua linha de pesquisa e seus erros passados(por que não incluí-los como algo que revela sobre o artista que veremos mais adiante acertando de outras formas?). Foi assim que me senti ao entrar em contato com os espetáculos do Anjos 7. Artistas despreocupados em pensar o festival de forma especulativa e sim, tentando buscar ali o momento de compartilhar com outros, totalmente diferentes, maneiras múltiplas de realizar "o mesmo ofício". Gol para os participantes. A pior coisa que pode transformar um festival em algo morto é a forma de encará-lo como algo burocrático, previsível e com uma formatação óbvia. O Oscar americano caiu nesta armadilha. Quem não tem a impressão de ver a mesma cerimônia todo ano?

No Anjos do Picadeiro, a forma como nos foi dada a apresentação do La Mínima foi muito gostosa. Entrar num teatro e sentir uma experiência teatral criativa, sofisticada, bem realizada técnica e tecnologicamente! E ainda assim perceber que se trata de uma forma de apresentação que dialoga com o público de forma menos interativa que os outros espetáculos do Anjos. Havia ali um trabalho de pensar a comicidade dentro de uma narrativa dramática clássica: premissas, protagonistas, antagonista, conflitos, clímax e desfecho. Impressionou a liberdade que eles nos davam de complementar os cenários que, com poucos objetos e muita competência na interpretação, deixavam nossa imaginação correr solta. E aí está a interatividade que tanto se busca entre palco e platéia!

Numa profissão em que ator e diretor normalmente são a mesma pessoa, tem-se aqui um outro tipo de realização que pode nos ser oferecida quando um palhaço desenvolve um trabalho com um diretor.

Na contramão desta linha, há o Avner, que com seu espetáculo de números também se preocupou em indicar um fio condutor (os 5 minutos de relógio que mencionou no começo) para pontuar o show até o fim. Inclusive quando brinca com o suposto término quando depois revela que ainda faltava 1 minuto. Este tipo de pontuação pode ser traiçoeira, pois se o público não estiver satisfeito com o espetáculo, estes marcadores podem servir como indicadores do tão esperado fim. Mas quando funciona é que podemos perceber a potência do recurso e fazer-nos "tirar o chapéu". Foi o que aconteceu. Avner, um senhor elegante, presença simpática no palco, que realiza as ações com tanta maestria e domínio de foco. Achei muito bom o momento que Avner divide com o público sua capacidade de ludibriar a visão com uma boa condução de foco do olhar. A moça convidada a subir ao palco foi a "isca" que serviu como espelho para nós mesmos. Ali, vimos que tudo não passa de realizar as ações nos tempos certos e que não há mágica. O maravilhoso é saber como se faz e mesmo assim deleitar-se com o modo como é feito. Todos sabemos que estamos ali para rir. Esperamos isso. Gostamos de rir. Mas entre estar propenso a rir e ser surpreendido com uma boa piada, uma boa "tirada" já é uma outra história...

Portanto, Parabéns a estas duas apresentações.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nem ode nem ódio!

Nem ode nem ódio, ou, água mole em pedra dura...molha

E no "Encontro Anjos do Picadeiro 2008" já passava das 13:30h quando a última mesa começou no domingo dia 07. Entre o medalhão de filé mignon, a salada, o chester e a fala do Hugo Possolo, corria também uma lista de adesão(abaixo assinado) para que fosse aceito na ENC-Escola Nacional de Circo - um professor de Palhaço. 

Muito bem, qual das opções abaixo é verdadeira, ou não?

Medalhão não se escreve assim? O “matador de palhacinhos” nunca matou nenhum? A mesa começou atrasada 1:30h? Palhaço não se ensina?

Marcando todas ou somente uma opção lembro que os ditos ícones da palhaçaria aprenderam na base da mímica. Ou mimesis para não dizer que não escrevo em latim. Observaram os próximos e anteriores, copiaram, repetiram, adaptaram. E quem sabe não aperfeiçoaram? Se isso não é a definição de “reprise”, calo-me. Mas, como mímico leva a fama de não falar mesmo, escrevo mais. Como bem diz Dario Fo (sempre cite, pois torna seu texto embasado)” a mímica para os italianos amplia para o gesto, a fala, a dança e qualquer forma de expressão” (Manual Mínimo do Ator).


Não conheci Debureau (funâmbulo e mimo Belga célebre por seu Pierrô e pela utilização da pantomima), Marceau, Chaplin, Rivel, Gordo e o Magro, dentre tantos, mas ainda assim tenho a influência deles. É inevitável. Estudei com Luís de Lima que também tinha uma gama colossal. E assim caminha a humanidade.

Claro que muitos contemporâneos que estão por aí e aqui hoje estudaram técnicas com outros.

Os alunos da ENC tem razão de pedir um professor de palhaço? Sim. É do nosso tempo.

Os mestres da ENC tem razão de dizer que palhaço não se ensina? Sim. O tempo provou.

E assim tivemos o prazer de assistir neste 7º Anjos do Picadeiro o Palhaço Xuxu fazer a mesma cena/reprise que assisti embevecido ele realizar no 1º Anjos do Picadeiro em 1996. Era a mesma, mas era diferente. Esse é o barato, essa é a busca. E quando assisti em 1996, Xuxu já tinha muita poeira de estrada na maquiagem.

Palhaço não nasce de combustão espontânea.

Talvez tenha sido isso que o ParlapaPalhaçoPaulista “Matador de Palhacinho” Hugo Possolo, meu colega, tenha sinalizado anos atrás. Ele é um visionário, sua história prova. Apesar de somente os mímicos terem realmente matado os palhacinhos. O meu grupo mimo carioca que o atropelou em cena na mesma edição do Manifesto e depois o mimo-punk paulistano Claudio Carneiro que o faz de forma primorosa. Definitivamente esse prazer é nosso, dos mímicos. Palhaços não são canibais.

Sempre tivemos a oportunidade de assistir nos Anjos do Picadeiro impressionantes e marcantes palhaços/cômicos/excêntricos ou seja lá o título que vão inventar para diferenciar os iguais. Mas, pra não dizer que só falei das flores, em 1996 vimos o primeiro encontro e uma festa, em 1998 víamos o segundo encontro e SIM uma enxurrada apavorante de cópia da cópia da cópia. Chegamos a 07 edições do Anjos do Picadeiro-Encontro Internacional de Palhaços com avanço, mas também com ranço. E acumulado.

Há um crise/pilha de vocabulário entre “Encontro” e “Festival”? Mais pilha do que crise, pois ambos existem e magnificamente precisam coexistir. Ou a gente emburrece na falta de um ou não multiplica na falta de outro.

E olha que já na primeira edição em 1996 a “Festa” que o Anônimo realizou no Teatro Carlos Gomes foi um “Encontro” de diversidades, pois tinha dentre tantos o Palhaço Xuxu, os Parlapatões, Antônio Nobrega, Gabriel Guimard, Lume, Santiago Galassi, As Marias da Graça, Intrépida Trupe, cia do público. E a mídia divulgou e o público foi.
Diversidade sempre foi a palavra de ordem do Anjos do Picadeiro.

Tinha palhaço? Tinha sim senhor!
Mas, tinha acrobata, clown, falastrão, trapezista, mímico, brincante, mimo clown, clown de teatro e isso em mil novecentos e noventa e seis. Edição zero, só virou 1 depois que veio a 2.

Muito se fala da crise dos 07 anos de casados. Acho que é isso...

Fiquei mais uma vez feliz com o encontro. Pode ser melhor? Sempre.
Pode não ter atrasos? Sim.
Pode não ter seguidores? Sim, por favor.

Sou contra pseudo ícones e suas legiões de fãs. Sejam esses pseudos bufões, clowns de teatro, palhaço profundo ou mime-contemporany (acreditem em mim, existe!). O problema é o discurso de encantadores de serpentes e os sem nexo que se deixam levar.

Se é para sujar o palco suje bem, mas de forma limpa. Se vai discursar que não seja fora de curso, ultrapassado e incoerente com o seu tempo e com o que você é fora e dentro do palco.
Não tenho palhaço com nome, idade, família e essas coisas psicológicas(?). Não entrei em catarse para aprofundar meu paralelo/transversal. Não agüento mais Palhaço só na forma com o figurino comprado ou mesmo montado com sobra qualquer do guarda roupa.

E principalmente não agüento mais o “tempo”.
Esse tempo de esperar alguma coisa acontecer para reagir na cena, na rua, no picadeiro, no palco ou mesmo em casa.
O melhor é reagirmos antes.

E vamos repetir a exaustão, e/ou vamos procurar uma dramaturgia, e/ou vamos abrir mão do excesso de gags desnecessárias, e/ou não vamos copiar o trabalho do colega, e/ou tempo arrastado e longo, que te leva ao fundo de cena, e acredite isso não é a rotunda e sim para fora da roda ou dos olhos/atenção do público.

Ano novo se aproxima, então desejo muita disposição pra gente e que na próxima edição “Palhaço Novo não entre com número velho. Só velho Palhaço com seu número”.

Afinal, água mole em pedra dura até fura. Mas, demora.

Que venha o 8º Anjos do Picadeiro – Encontro Internacional de Palhaços
 

Alvaro Assad – mímico e diretor do Centro Teatral e Etc e Tal

(Utiliza junto com o seu grupo a cota social que garante a presença de até 1% de mímicos e derivados neste encontro único.)

Aplausos e Agradecimentos

Queridos ANJOS... !!!!!!!!!!

Vocês estão todos de parabéns!!!!!!!!!!!!! (Hooooo!!!!!!)

Foi muito legal e proveitoso participar junto com vocês de tão nobre evento....!!!!!!! (Hooooo!!!!!!!!)

Muito obrigado de coração por poder assistir tão belos e elucidativos espetáculos...!!!!!!!!! (Hooooo!!!!!!!!!!!!!)

A vida das pessoas que assistiram estes espetáculos com certeza não será mais a mesma !!!!! (Hoooo!!!!!!!)

As coisas têm importância a medida que fazem diferenças nas vidas de cada um e, por este prisma, além do lúdico que é de inigualável valor, estou certo de que fez muita diferença para mim, e com certeza para cada um de nós

(HOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!)

Pá pá p´ra p´ra pá p´rá pá p´rá pá................................!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (APLAUSOS)

Fiu Fiu Fiu Fiu Fiu.............................!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (assobios)

Ua aaaaa AAAAAAAAAAAAAAAA aaaaaa arrrrrrrrrrr aaaaaa (GRITOS ENTÉRICOS)

Shipap Sfiuuuu SHIIII FUSTDSSSS (cuecas e calcinhas voando para o palco)

BUN BUN, BUN BUN, BUN BUN........ (corações disparados)

Shum fuuimmmm Shumm fummmm [respirações profunda e novo ânimo (anônimo rsrsr), para continuarrrrrrrrrr A BUSCA]

E por fimmmm xui xuxAuxuAx xixiAxchep chueAp chuep chuAplefff................!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (ALMAS SENDO LAVADAS)

POR MAIS FIM DE NOVO (RSRSRS)

PARABÉNS.........!!!!!!!!!!!!!!!! E: E: E: E: E: tan dam dam dam 

Vocês são verdadeiros anjos (HOOOO.............!!!!!!)

MUITO OBRIGADO

Almeida Kitengue

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Vídeo do Jornal da Globo

Para quem perdeu: e a tal mídia, tem o que a dizer? (colaboração de Reinaldo facchini)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Avaliando o Anjos do Picadeiro

Temos hoje uma realidade muito diferente da realidade do primeiro Anjos do Picadeiro. A importância do encontro é inquestionável! Hoje temos aqui uma grande possibilidade de reunião de grupos de muitos lugares do Brasil e do mundo, da aldeia Brasil e da aldeia global. Temos quarenta e seis grupos reunidos, grupos que trabalham e agem fundando um ideário do que é o palhaço para o homem atual. O papel de formação do Anjos, esse híbrido de encontro com festival é, para mim, também inquestionável. Por exemplo, a idéia do intercâmbio, com encontros, conversas e trocas de trabalho, é fundamental. É importante ver outros trabalhos, conhecer outros palhaços em diferentes regiões do país e do mundo, o que seria impossível numa empreitada solitária num espaço e num tempo tão intensos e curtos. Desta forma, o caráter de festival está no DNA do Anjos e acho que não podemos renegar esta herança até porque o caráter de festival é o que dá a possibilidade deste híbrido ser público, com dinheiro público, com patrocínio.

O Anjos, enquanto encontro de artistas deve tocar sim em questões estéticas até porque não podemos falar de ética sem falar de estética. O grande problema, para mim, é esta tentativa, da qual fala o Hugo, de encontrar os fãs ou de definir o palhaço: quem foi o melhor palhaço deste encontro? Quem arrasou e quem fracassou? Qual foi a melhor noite de gala? E a pior? Quem triunfou e quem fracassou? Para mim, estas questões são tão importantes quanto saber se é palhaço ou CROW, ou seja são falsos problemas. Não interessam!!!

Somos palhaços e devemos, num encontro, falarmos de valores, sim!!! Somos a possibilidade de entender a diversidade e conviver com ela. Então por que sempre buscar um modelo? Querer saber se vou ficar de nariz ou se não vou meter o nariz em questões fundamentais de ética e estética?!

Resumindo, pois escrever é difícil, o pensamento vai mais rápido que os dedos: o encontro é muito potente! É feito por convite, é um encontro de família com todos os seus problemas, então, vamos tocar em questões éticas sim. Uma delas para mim, por exemplo, é o atraso dos espetáculos. Estamos formando artistas que aprendem que um atraso de 2 horas é legal??? Como assim? O palhaço se leva a sério sim! Caramba, não é porque o palhaço é um perdedor que temos que pensar que ele gosta de perder. De forma alguma.
João, eu acho que temos que assumir nossa herança híbrida que vem do festival.
Sinceramente, eu duvido que um artista aqui esteja tão desencanado da pontualidade num Sesc. Uai! Somos mais profissionais no Sesc? Estamos, pergunto, eu tão vulneráveis à força do poder econômico, uma vez que o Anjos, como foi dito pelo João na abertura do encontro e é verdadeiro, que só acontece pelo investimento também dos artistas. Quer dizer, já que nós artistas, ganhamos, no Anjos, menos do que ganhamos na iniciativa privada e / ou pública, relaxamos e tratamos o nosso ganha pão, a nossa paixão a nossa força com este desde?
Então, reafirmo a questão: Não estamos vulneráveis a virar grandes Charles (não o Chaplin, mas o Rivel) que era o palhaço de Hitler?

Ésio Magalhães

Algumas observações

Sobre a mesa de debates: Você está rindo de quê? com Victor Queiroga (CHI), André Bueno (RJ), Luis Carlos Vasconcellos (PB) e Adriana Schneider (RJ).


Dentro de um Encontro com manifestações diversas da comicidade, eis que uma mesa de debates resolve questionar sobre aquilo que estamos rindo. Ao término da discussão, era visível que não havíamos chegado a um lugar mais concreto sobre o riso. E eu me pergunto se esse lugar existe. É possível definir algo que é mutável por natureza própria?


É evidente que a mesa não tinha a pretensão de formatar conclusões e sua importância está justamente no que ela foi capaz de gerar em reflexões. Ao ouvir artistas e estudiosos de lugares distintos, de países distintos, dialogando em línguas diferentes e com opiniões variadas sobre o riso, tive uma impressão muito boa do Encontro e de sua motivação: estávamos ali falando daquilo que a todos unificava, discorrendo sobre aquilo que nos fazia estar juntos, lado a lado.


E então ali eu também estava, buscando compreensões a partir do que ouvia, do que já tinha ouvido, juntando as pontas e tentando saber o porquê do meu riso. Lembrei-me então do já citado ensaio de Henri Bergson sobre a significação da comicidade, “O Riso”. Ele afirma que para compreender o riso, é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade...


E por isso questiono, no início dessa observação que escrevo, se é possível definir algo que é mutável por sua natureza própria. Comecei a observar que o mistério do riso é justamente tão difícil de decifrar, pois está constantemente se refazendo. Se assumirmos o riso como manifestação vinculada à sociedade, não há mesmo possibilidade de compreendê-lo por completo, ainda mais neste momento, em que as coisas se alteram e se superam com assustadora e bela rapidez.


E quantas sociedades nós homens podemos erguer, quantas diferentes políticas podemos instaurar? Parte desse indecifrável mistério, acredito, repousa no que é diferente. É ainda Bergson quem formula que toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo será então suspeita para a sociedade. É dessa suspeita que o riso emerge. E o suspeito é aquilo que é estranho ao "normal". O suspeito é o diferente. Sem ansiar por respostas, eu me volto às perguntas: qual é a variedade de corpos e mesmo de rigidez que a sociedade de hoje – o homem – é capaz de criar? Ou então, quantos novos agentes do riso podemos inventar?


Sem dúvida, além desse caráter mutante do riso, posto que se insira num espaço/tempo social também em constante mutação, há também uma parcela do cômico que ultrapassa o tempo e avança épocas, carregando consigo aguilhões de um riso incapaz de se conter. O meu intuito aqui, porém, foi o de observar algo que para mim influencia determinantemente o estudo e o trabalho com a comicidade. Mais do que fazer rir, o artista cômico deve-se cobrar o porquê do riso que provoca. E pensar nisso estando alheio ao seu espaço e ao seu tempo, é fazer do riso uma ferramenta por vezes alienante e também, por vezes, perigosa demais.


Numa última observação, acho interessante ressaltar que é por encontros como este que somos movidos a mudar alguma coisa, o mundo, uma parcela dele, o nosso ofício, nossa cidade. E é nesse exercício da mudança, que redirecionamos o riso e reinventamos a nossa arte. E que possamos, talvez, nunca desvendar por completo este mistério. Pois é em virtude de seu segredo que continuamos a caminhar.

Nossas mesas de debates

Há uma parte dos participantes do Anjos que ao terminar uma mesa de debate diz: mas para que fazer uma mesa de discussão sobre palhaço?
Houve quem falou no final que “palhaço não fala, palhaço faz”. Ou um outro: “palhaçaria não se discute em mesa, se faz”. É claro que não dá para dizer que isso não é verdade. No entanto, é preciso refletir que não há homem ou mulher no mundo em que a ação e o pensamento estejam separados. Nas sociedades em que exploram o trabalho do outro, como no capitalismo, até se tentou fazer a separação entre os que pensam e os que fazem no mundo do trabalho. Mas, nem o capitalismo resistiu a isso. Hoje, as próprias empresas e indústrias defendem a idéia de um operário intelectual, um trabalhador que pensa. Imagina o palhaço que nasce nessa não separação, ou seja, no seu fazer artístico. Ação-pensamento-ação-pensamento... vivem na maior intimidade.
Como o artista palhaço faz isso o tempo todo, não é interessante compartilhar a produção ação-pensamento com muitos outros? Os “não palhaços” não podem refletir sobre a ação-pensamento dos artistas e seus palhaços? Não é interessante fazer uma conexão no encontro com esses que pensam, observam e assistem com uma ação de pensar com, já que essa é a íntima relação com o público, já que é o outro que faz dele palhaço?
Essas mesas fazem bem.

Erminia Silva

sábado, 6 de dezembro de 2008

E que sirva de exemplo...

Nesta última quinta-feira (04/12), assisti no SESC Ginástico ao espetáculo A noite dos palhaços mudos, do grupo La Mínima (SP). A peça encena a busca de dois palhaços pelo nariz de um deles, que foi cortado e roubado por um homem que pretende exterminá-los. Em determinado momento da peça, o vilão exclama em protesto: E que sirva de exemplo! Mal sabe ele, porém, que o seu protesto é também a sua própria cilada. Afinal, como assegurar a ele que não seguiremos o exemplo de ser palhaço? Como assegurar que nem todos venham a perceber que optar por não ser palhaço pode talvez decorrer em morte, em emudecer?


O espetáculo que se inicia com o roubo do nariz avança numa busca ininterrupta dos dois palhaços pelo objeto furtado. Mais do que uma busca por um objeto, presenciamos também a obstinada procura por aquilo que se é. O caminho se dilata e com poucas falas (os palhaços são mudos, afinal) criam-se desdobramentos por uma séria de engenhosas e criativas ações que estimulam o desenhar de uma história pelo espectador. E é por essa busca que o espetáculo nos ganha, pois são nas tentativas e no eterno ir e se jogar que os palhaços nos impelem a acreditar/participar de seu destino.


Chamo atenção para a escolha da mudez. O que poderia ser silêncio, incomunicabilidade, confere ainda mais vitalidade aos palhaços. Percebe-se a vida mais concentrada e ouve-se muito mais: os ruídos, os grilhos furando a noite, as risadas (não só da platéia) e também o choro. Além disso, há uma trilha sonora impecável que nos lança inevitavelmente para o clima que cada cena exige. Que difícil é imaginar este espetáculo fora de um espaço fechado! Há todo um aparato técnico que funciona em harmonia na construção dessa atmosfera – dessa noite imersa num clima de caça às bruxas. E o poder de sugestão! Nada é simplesmente dado, mas, sobretudo, insinuado. O uso do micro e do macro: nem sempre o maior será o mais difícil obstáculo. Aqui, o principal desafio é lançado a nós, espectadores, estimulados a assim como os palhaços, buscar contornos e atalhos que nos levem adiante.


Com uma tesoura de jardineiro o vilão corta o nariz de um palhaço. Com uma serra elétrica em pleno funcionamento ele avança em direção ao outro. Em especial, a violência, a crueldade que me chama mais atenção é essa de tornar matéria-prima do trabalho a própria ameaça de sua existência. São palhaços encenando a história de sua caça. São homens desenhando a possibilidade de sua própria censura. Desenhar a repressão não para simplesmente calar, mas principalmente – e aqui está para mim o grande triunfo do trabalho - para revelar como ainda há muito que se dizer. Para instigar a descoberta de outros meios de se fazer dizível.


Também me impressiona a comunhão de uma estrutura dramatúrgica com a utilização de técnicas diversas da palhaçaria. Um encadeamento de ações dramáticas que constroem um percurso marcado por conflitos entre os dois palhaços e o vilão e daí, surge um espetáculo em caixa fechada que transpira a energia de um picadeiro, pois é pelo riso que selamos a união palco-platéia.


Em uma dada cena, o vilão utiliza-se do nariz roubado para dar um discurso sobre a tal praga/palhaço. Enquanto ele discursa seus preconceitos e injúrias contra os palhaços (também nem sempre pelo verbo), a platéia ri em profusão. Eu me pergunto se neste momento o nosso riso não estaria nos cegando? Se o nosso riso não estaria validando tudo o que é dito? Poderia ser. Também. Mas, talvez, o mistério do riso seja ainda mais complexo. Por que não estaríamos rindo do quão ridículo era aquele discurso? Por que não, rindo da ignorância do ditador?


O que, enfim, se destaca desta cena é a percepção de que assim como com as pragas, os palhaços também criam raízes. E talvez o tal vilão – mais uma vez - não tivesse percebido que cortar fora um nariz não fosse exterminar coisa alguma. Ao mesmo tempo, foi somente com este corte que eu percebi que ali o nariz nada mais era do que uma forma. Pois o que há de mais vital está sedimentado feito raiz, está dentro do palhaço. É seu espírito.


Começamos a rir quando o primeiro nariz foi cortado. E talvez esteja aí a nossa salvação: saber também rir das coisas que despencam rumo ao chão.

Jango, we love you

E o Jango?
O Jango nos deixou mudos. Ele nos confunde.
Na platéia do Carlos Gomes me vi cercada ao final do espetáculo por reações muito diferentes e contraditórias. Algumas pessoas choravam, outras queriam ter saído antes do espetáculo, outras cantavam viceralmente “love, love, love”, outras bocejavam, algumas exclamavam “genial!”, outras esboçavam um que “merda”, outras estavam constrangidas (aquela sensação de peixe fora d’água) porque não tinham sido arrebatadas como a maioria da galera. Parecia que o próprio Jango sentia essa profusão de reações distintas, quando, sem precisar, se justificou ao final rendendo-se à inexistência de um triunfo completo.
Triunfo que nós espectadores do anjos conhecemos bem, quando na unanimidade catártica após “Os Instintos Ocultos” de Léo Bassi, quando Tortell abraçou-se possúído à musa maior do anjos, Alice Viveiros de Castro empastelados pelo poder redentor da tortada na cara. Ou quando el rei de la calle Chacovacci, nos domina por completo fazendo agir sobre nós o poder ancestral da praça pública. E tantos outros momentos memoráveis que vivemos e que ainda virão.
E eu, o que eu sentia?
Montanha-russa.
Jango me levou às alturas em vários momentos, orgasmos múltiplos na rapidez do carrinho quando desce a ladeira vertiginosa, durante a profusão de gags clássicas, de gestos clássicos, o looping que nos vira do avesso inebriados com o poder ancestral da máscara do palhaço vagabundo e estúpido. Por outro lado, ali nas curvas da montanha, dando umas sacudidelas na tentativa de nos assustar em nossa curta viagem, senti uma indiferença atroz em alguns outros números onde se repetia a fórmula sujeira, pau, boceta, boquete, dublagem. Era maneiro, claro, mas não arrebatador. Não que seja isso que a gente espera, longe de mim julgar o risco daquele que se atira no abismo sem rede.
Mas, então, vamos pular no Bola Preta em fevereiro e te convidamos, Jango, a vir com a gente, vamos te lançar ali, lourinha gostosa de peitinhos murchos, musa do Cordão! É, eu sei. Essa sujeira é necessária, muito necessária na Alemanha, na Holanda, pros trens, metrôs se atrasarem, pra gente poder falar alto em público, dar dois beijinhos quando somos apresentados pela primeira vez, pra aquela aparente perfeição desmoronar e revelar o terceiro mundo escondido debaixo do tapete.
Em todo caso, na viagem daquela noite todos nós embarcamos nas múltiplas visagens do cômico. Um desfile virtuoso de possibilidades. E principalmente um palhaço humano até o âmago, sem medo de perder, sem medo de seduzir-se pelo prazer triunfal, sem medo do erro, sem medo do acerto. E, que, como um “bom” americano, se é que nos dias de hoje possamos romper o preconceito e imaginar que haja algo assim, conhece bem o significado da expressão FUCK YOU. Ele sabe muito bem ligar o “foda-se” e esse é um mérito fundamental, num momento em que estamos exaltando, levianamente, um discurso de mitificação em torno do poder do palhaço. Não que este poder não exista, mas não posso concordar com o discurso que tenta transformar o palhaço no herói do nosso tempo, um guru possível para o século XXI. Por isso o texto escrito e falado na mesa “Você está rindo de quê?”, pelo André Bueno é tão impressionante e lúcido (leiam na íntegra aqui no blog!).
Claro, o palhaço nos toca, nos transforma e pode até nos conduzir a uma experiência mística de transformação espiritual. E o Bozo? E o Ronald Mac Donald’s? Se quisermos que o palhaço seja nosso herói, estamos roubados. Supermen é o caralho. Como diz minha amiga Cris, “errar é unânime”. É disso que precisamos. Piramos com “Os Instintos Ocultos” e não nos tocamos no “Revelações”, é isso mesmo, o Léo Bassi é humano. Jango e sua montanha-russa são também. Ufa! Estamos vivos.
Somos contraditórios, sejamos! Não há verdade, há caminho. Os filósofos especulam sobre a verdade. A ciência busca a verdade. A religião encontrou a verdade. Mas a arte é o lugar das possibilidades, da celebração do inútil.
Por isso, Jango, como diz o poeta Paulo Leminski:
Amei em cheio
Meio amei-o
Meio não amei-o

a pedidos: o texto do André Bueno

HÁ MUITOS MODOS DE RIR, O RISO TEM VÁRIOS SENTIDOS


Há muitos modos de rir. O riso tem vários sentidos. É um engano pensar que o riso é sempre libertador e crítico. Pode ser, pode não ser. Depende. Há uma longa tradição da sátira, da ironia, do deboche, desmontando as pompas do mundo. Mas também há o riso que se identifica com a violência e a opressão, colocando o espectador no lugar de quem zomba dos mais fracos. É um riso fácil. É um riso vil. Não passa de uma linha auxiliar dos aparatos de poder e opressão. Talvez produza em quem ri a mais que ilusória sensação de ser superior àqueles de quem ri. Uma supremacia bem tola, se aquele que ri dos mais fracos é também um oprimido. É sempre mais fácil zombar dos mais fracos e bajular os poderosos. O riso lambe-botas. O riso puxa-saco. O riso servil e subalterno. O riso do Zé Ninguém, diria Reich. O riso que reconcilia com a violência, diria Adorno.
Há o riso que vem das longas tradições populares. O riso descarado, aberto, malicioso, que leva consigo sempre uma alegria de viver. Muitas vezes, o impulso de burlar a ordem, de se virar como pobre na sociedade dos que dominam o mundo. Uma espécie de riso malandro e malicioso. Que também não é isento de problemas. Porque também acontece de a malandragem não ser mais que a ilusória supremacia dos fracos, brigando e rindo entre si, sem enxergar a figura completa da opressão. Depende. Porque de nada adianta idealizar um riso popular como pureza ancestral. Bela ilusão populista, que não resiste a um olhar atento, que há de perceber sempre as formas introjetadas da ideologia..... no riso que ri bastante. E incorpora ao riso o preconceito, o moralismo tacanho, a opressão patriarcal, a política em seu sentido mais raso e reduzido. Quem sabe? Depende.
O riso das tradições populares passa pela tradição do circo. A tradição do clown. Penso no filme de Fellini. I clowns. Um documentário sobre uma arte que parece em extinção, sentindo a concorrência da indústria da cultura. O riso e sua sombra. Riso e melancolia. Riso e uma profunda tristeza. Não apenas a tristeza do palhaço que precisa entrar no palco e fazer rir, mesmo com o coração partido. Mas também a profunda melancolia da vida real contraposta à vida do palhaço. Está no filme de Fellini. Os palhaços no final da linha, pobres e desamparados, solitários e muito, muito tristes. O riso que, afinal, não pode tanto assim contra a força do princípio de realidade- o abandono, a velhice, a pobreza, o esquecimento. Nem sempre é possível manter viva a potência vital da criança que fomos, que continuamos sendo, apesar de todas as máscaras que a vida em sociedade exige. Viver é vestir máscaras. Sabia Lima Barreto, muito bem, que o humor e a ironia podem ser máscaras da dor, uma forma de defesa contra a dureza do mundo. A máscara do mal secreto. Depende.
Há o riso ingênuo associado aos pobres, aos vagabundos, aos postos à margem. É o riso do palhaço vagabundo de Chaplin. Frágil, engraçado, lírico, desamparado, batendo de frente, saindo pela tangente, se virando como pode. Misturando riso e muito de melodrama. Mas também sabendo rir do que conta: os gestos repetidos e maquinais da sociedade urbana e industrial, os gestos caricatos dos ditadores, vistos apenas como bufões. Seria justo apenas rir de Hitler e Mussolini? Já era um bom começo. Tirar a máscara de onipotência, arrogância e violência do rosto, dos gestos e das falas desses tiranos. Adorno diria que não, que isso é bem pouco, que isso nem de longe dava conta do mal absoluto que o nazismo e o fascismo foram. Mas, pensando bem, os personagens dos tiranos demagógicos e bufões, falastrões e retóricos, convenceram e convencem muita gente. Já sabiam os gregos, a praça pública pode muito bem ser ocupada pelo demagogo, que não busca a verdade e a justiça, apenas se vende através da melhor retórica. Não levar a sério a figura caricata dos tiranos bufões é sempre um bom começo. Um primeiro passo. Mas não o mais importante.
Há o riso carregado de veneno, pensado e refletido, que faz pensar. Que faz rir e faz pensar. Um pouco como nos gestos dos personagens de Brecht, desmontando a aparente naturalidade da vida social. Um riso crítico não quer dizer um riso chato e monótono. Quem detesta o pensamento, porque sabe que o pensamento incomoda, há de sempre desqualificar o pensamento, sempre tomado como coisa chata, árida, estéril. Como se diz hoje, no espaço subcultural dos jornais e revistas, feitos para tolos sem imaginação: “papo cabeça” versus “papo pipoca”. Uma verdadeira pororoca de babaquice. Porque pensar cansa. Porque o riso que não apenas alivia a tensão, mas leva a pensar, incomoda. Mostra que não é confortável estar no mundo injusto. Mas também depende. Conforme a dose, o riso carregado de veneno prova de seu próprio veneno. E vira riso cínico e perverso, aquele riso estranho, que faz a platéia rir de nervosa que fica, diante da crua exposição do que é abjeto. Ou difícil, muito difícil. Depende muito. A quem serve, a quem interessa esse riso cínico e perverso? É típico de épocas de derrota, como a nossa. É uma espécie de último refúgio dos derrotados, quase sempre artistas, estudantes e intelectuais. Para quem a alienação é sempre a dos outros, nunca a deles mesmos. Uma cômoda maneira de viver fora da história, num mirante imaginário, vendo e entendendo tudo. Derrotados, mas onipotentes e sempre arrogantes. Melhor o riso fácil e ingênuo da tradição popular. Antes, bem antes de ser absorvida pela indústria da cultura e se tornar também clichê, mercadoria de massa, grosseria repetida até à exaustão.
Dizem que o riso desopila o fígado. Faz bem pra saúde. Deve ser verdade. As caras e carrancas do cansaço de todo dia são monótonas e cansativas. Máscaras da seriedade, do dever, da pressa, do tempo sem sentido ocupado por gestos e ocupações também monótonas e cansativas. É disso que o palhaço também ri. A comédia do poder. As ilusões do poder. As máscaras da monotonia e da seriedade. Será sempre um manancial para a boa arte, que saiba também rir de si mesma, sabendo-se parte do jogo. Não a solução, mas parte do problema, como dizia aquela canção de Dylan. Faz tempo? Pois é. Parece que foi ontem.
Há muitos modos de rir. O riso tem vários sentidos. O riso é ambivalente. Todo mundo vai ao circo, todo mundo gosta do palhaço, porque todo mundo gosta do riso inaugural, o da infância. Mas experimente dizer, na cara de alguém, você um palhaço. É ofensa. Ambivalente até a raiz, claro. Se assim não fosse, ser chamado de palhaço seria sempre um belo elogio. Mesmo a frase que é o mote do nosso encontro- você está rindo de quê?- é carregada de ambivalência. Traz uma carga forte de violência e confronto. Uma ameaça implícita de agressão. Longe, bem longe dos gestos líricos e delicados, dos acrobatas anões no centro do picadeiro, no alto, em movimento, ele dizendo pra ela, assim, mon petit ange. E repetindo, carinhoso, mon petit ange. Meu pequeno anjo lírico e alegre e gentil, coração no mundo sem coração. Bem feitas as contas, no jogo do princípio do prazer com o princípio da realidade, é a realidade quem leva a melhor. Abrir a porta e sair para jogar, jogando fora o espírito de seriedade, seria um passo adiante, como o sabia Julio Cortázar, pondo seus cronópios para brincar nas situações mais sérias e formais da vida social. O riso sutil, alegre, irônico, erótico, verdadeiro exercício da imaginação em movimento. É disso que eu gosto.

Eu? Gosto do riso que não deixa as coisas no lugar. Que não aceita a ordem, sem lugar, sem rir, sem chorar. A ordem unida do mesmo que se repete. Gosto da ironia que joga com as pretensões e ilusões e poses e pompas. Gosto de ironizar a minha própria posição e a do mundo em que vivo. Vale dizer, o da classe média letrada. Ciosa de seus privilégios, virtuosa de esquerda, muitas vezes apenas mascarando seus interesses. Ou pior, ciosa do privilégio de classe, da cultura, ou de seus simulacros fáceis. É fácil enganar. Basta ler alguns livros, mais ou menos, repetir umas frases feitas, empolar a fala, escrever textos complicados e vazios como um pastel de vento. E dizer tudo, mas tudo mesmo, com cara séria, de sábio paciente. Com a cara do Conselheiro Acácio, repetindo as maiores bobagens, o óbvio mais ululante, como se fosse sempre a descoberta de um Continente. Uma América de nadas. É bom rir dessas poses e pompas e pedantismos. Vale a pena. Ajuda a viver. Sempre há de haver, nas praças e esquinas e ruas e palcos de todo lugar, sem pátria e sem patrão, sem fronteiras, os anjos do picadeiro, a internacional da alegria na contramão da miséria do mundo. Mesmo fazendo a mais mínima mímica, silêncio dentro do silêncio, eu saberei sempre do que estão rindo. E estarei de acordo. Meus mais sinceros cumprimentos a todos vocês, que fazem da vida esse movimento, semeando o genuíno grão da alegria no chão árido e estéril da realidade.

André Bueno
Rio de Janeiro
Dezembro de 2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mesa de Debate: Marmeldas e (im)posturas

video

Sobre a mesa "você está rindo de quê?" e outras impressões

Aos que já viram meu nome na lista dos integrantes do Observatório mas que até agora não haviam lido nada com minha assinatura, peço uma breve explanação do meu silêncio até então. Ao ser convidado para postar “observações” sobre o Anjos, minha primeira atitude foi somente observar. Talvez por receio de tecer palavras dessituadas e precipitadas mas também por respeito a este universo do palhaço tão conhecido popularmente, que possui um lugar estabelecido na mente de quase todos os cidadãos. E justamente por obter este lugar estabelecido, vê-se com a necessidade de questionar este lugar.
Sou estudante de Direção Teatral e meu diálogo com a produção realizada no Anjos poderia enveredar por um caminho possível de críticas e apontamentos daquilo que funciona e do que não funciona. Poderia ressaltar recursos que me agradaram no espetáculo X ou no espetáculo Y. Pode ser que eu tente arriscar algo do gênero num outro momento, mas admito que estava à espera de algo que realmente me provocasse um desejo de produzir um pensamento que fosse válido compartilhar aqui.
Este desejo surgiu hoje pela manhã, ao assistir a mesa-redonda “Você está rindo de quê?”. Uma mesa muito interessante, com participações relevantes para ajudar a pensar um pouco mais sobre o riso de hoje. Acho que esta pergunta da mesa pode assumir um caráter malicioso se não estivermos atentos para uma questão muito importante. Henri Bergson (como lembrou Luis Carlos Vasconcellos) diz, em seu ensaio sobre a significação da comicidade denominado “O Riso”, que “a comicidade se dirige à inteligência pura” e, portanto, lá estávamos, desde às 10h da manhã, num estado de consciência que convoca a inteligência (afinal, estávamos discutindo um tema sentados em cadeiras e utilizando as palavras como meio de troca e debate) e até às 12h não havíamos sequer desnudado 20% do potencial do riso e, mais ainda, sequer respondido à pergunta da mesa. O que me deixou muito feliz! É óbvio que este esforço é extremamente necessário, principalmente num lugar no qual a maioria dos presentes são realizadores da comicidade. Longe de mim possuir este olhar ingênuo em que a técnica não possa ser destrinchada. Mas após classificar alguns elementos, diagnosticar outros através do cômico, me encanta saber que não é possível exaurir o tema. Eu, como espectador, talvez nem queira que isto aconteça, porque, uma vez desvendado o mistério, morto ele estará. Se encontrássemos a finitude deste universo, ele perderia exatamente o caráter de universo, ou seja, de infinito.
Como artista e como público, gosto de me surpreender, porque somente através do encontro com a surpresa que eu me modifico. É importante estar aberto e, como desejo preservar em mim a certeza de uma modificação contínua, resguardo-me no direito de querer me surpreender. Haverá riso enquanto houver transformação. E a transformação é algo que se dá entre o ato que faz rir e a pessoa que ri. Penso que é importante investigar o lugar da transformação atualmente. O palhaço tem um desafio que também passa pelo artista contemporâneo, seja ele do teatro, da música, da pintura, etc. Acho que um destes desafios é saber estar sensível ao lugar da transformação atualmente. O palhaço possui uma simbologia muito forte apregoada em si, com sua roupa e maquiagem, que já anuncia seu papel para a sociedade e talvez a sociedade esteja fechada (obviamente não em sua totalidade) para encontrar no palhaço o lugar de sua transformação. Talvez ainda para as crianças, pensam eles, o palhaço possa tocar. Esta emboscada é típica de nosso tempo, pois tudo hoje em dia é passível de ser “lugar-comum”. Portanto, a busca para rasgar o pre-conceito está dada. Por isso eu entendo o porquê de certos palhaços quererem abolir o nariz vermelho, assim como entendo aqueles que querem mantê-lo. Porque o conflito que se dá entre a aldeia e a universalização é exatamente escapar sem sumir. Escapar da armadilha colocada pelo clichê, pelo pastiche sem que, para tanto, esta fuga não se reflita em desaparecimento total. E finalizo minha “observação” atentando para um fato bastante curioso de que o riso, ao contrário, possui estas duas características: ele nos escapa e some. Mas reaparece.

Da rua ao palco

Incrível a experiência de assistir os shows de rua no Largo da Carioca e partir, em seguida, para a “caixa preta” do SESC Ginástico. Ressalta, em nossos olhares, a delicadeza e a simplicidade do belíssimo espetáculo A Noite dos Palhaços Mudos, da Companhia La Mínima, ovacionada intensamente ao final. A direção impecável explora com excelência o uso da iluminação e a inversão de planos espaciais, expondo, ainda mais, a inteligência e a sensibilidade dos atores.

Mesa de Debate: Você está rindo de quê?

video

E o Palhaço o que É?

Ligeiras definições e indefinições sobre o palhaço.


Exercer tua vida o mais plena e intensamente Possível.

Horacio Storani

 

Palhaço tem de todo tipo, de todas as maneiras, faz a gente rir, faz a gente chorar e ensina a gente a viver melhor no mundo.

Mariana Fausto

 

Fazer merda e estar certo.

Nicolas

 

Não querer inventar. Não querer ser engraçado. Apenas ser.

Jorge Paz

 

O palhaço é ridículo. Faz a gente rir. E faz a gente chorar.

Ésio Magalhães

 

O palhaço é você estar brincando em cena, feliz, curtindo com intensidade.

Fabrício Dorneles

 

Eu acho que o palhaço é quando você sabe quem você é e não tem problema com aquilo que você é. É quando você tem a capacidade de rir de você mesmo.

Márcio Libar 

 

O palhaço pode ser feliz e estúpido. Ou ser estúpido e feliz. Ou pode ser feliz e estúpido.  Estúpido e feliz...

Cristina Garcia

 

O palhaço é aquele que diverte as crianças.

Ambulante

 

A alegria do mundo. Sem os palhaços não haveria as crianças.

Pipoqueiro

 

É livre. Liberdade.

Maksim

 

Para mim o palhaço é você sem nada mais. Sem condicionamentos sociais, sem pensar demais, a essência verdadeira de cada um.

Claudio Levati

 

É levar um pouquinho de alegria. É levar a qualquer canto, qualquer cantinho nesse Brasil e no mundo todo.

Paçoca

 

Uma gente boba. Uma gente que não esquenta com nada, isso é o palhaço.

Ambulante

Palhaceata: encontro dos iguais nas diferenças

Antes de tudo quero declarar que adoro a palhaceata. Dentre várias razões vou tratar de uma que me permite abrir um leque de várias outras coisas para se pensar.
A palhaceata me lembra muito da minha infância e adolescência quando ainda os circenses de vários circos realizavam as passeatas. Estas nada mais eram do que a caminhada de todos os artistas do circo, inclusive os animais, por uma rua principal da cidade, em geral do comércio, onde realizavam o desfile para anunciar a estréia da noite.
Desfilava-se tanto andando a pé quanto sobre as carrocerias dos caminhões. Nessas últimas iam alguns artistas mais idosos, algumas crianças, mas também iam armados trapézios simples. Na rua, juntava-se a diversidade de artistas: contorcionistas, saltadores, malabaristas, cachorros, cabras, burros sábios, cantores, músicos, atores e muitos, mas muitos palhaços. Lembro que não era grande o trajeto que percorríamos na cidade, mas provocávamos êxtase ao passar, pois além do fato de que em muitas cidades só o circo chegava, a passeata era o primeiro grande momento dos múltiplos encontros de tantos iguais e de tantos diferentes.
Há muito o que se escrever sobre uma passeata, mas ninguém escreveu, nem eu. Quando comecei a participar dos Anjos, que tem na saída dos palhaços a abertura oficial do evento, todo um leque de emoções e possibilidades de refletir sobre isso me foi retomada.
Somente hoje tenho condições de olhar para trás e pensar sobre o quanto aqueles momentos eram prazerosos. Alguns circenses relatavam que se sentiam como plenos após uma passeata. Por quê será? É interessante pensar que era um momento muito diferente do que iriam viver à noite no espetáculo. Havia comunicação e contato quase que corpo a corpo com as pessoas da cidade. Era o momento de encontros entre os próprios artistas como coletivo, e deles com as crianças, jovens, adultos e velhos da cidade. Parece exagerado dizer que se encontrava com “a cidade”, mas era quase isso, pois quando começavam os primeiros preparativos para sair às ruas, a divulgação boca a boca de que o circo ia desfilar chegava a um número muito grande de pessoas. Dependendo o tamanho da cidade todo mundo, mesmo, via e participava do desfile.
Era um dos momentos de diferentes níveis de exigências do palhaço, pois ele estava na rua. Quem é palhaço e que trabalha na rua sabe o que isso significa. À noite, o artista palhaço estava meio que “protegido” pela lona, pela sua aldeia. Mas na rua é outra história. O inesperado é o que mais mobiliza os saberes-ferramentas do artista, principalmente do palhaço. A quantidade dessas ferramentas tem que ser suficientemente grande para dar conta do improviso das ruas. Lembro de um palhaço que chamávamos Seu Pipo. Chileno de nascimento, ele dizia que era a rua e a passeata lhe davam um traquejo, que lhe facilitava muito à noite no picadeiro, pois era lá, afirmava ele, que no rápido trajeto, mas de muitos encontros, pesquisava para a apresentação no picadeiro.
Nesses infinitos encontros, aproveitando o mote do Anjos do Picadeiro 7, das várias aldeias presentes entre os circenses e na cidade, entre pessoas distintas, diferentes mas iguais, parecidas, é que nos dá a medida da riqueza de que todos que haviam passado por aquela experiência tinham se transformado. Por isso a idéia de saírem plenos.
Apesar de repetirem e repetirem sempre a passeata, ela nunca era igual. E é isso que vejo em cada palhaceata que participo. Se nos ativermos à aldeia dos palhaços, ela em si é um encontro que reafirma as diferenças nas igualdades. Como disse Chacovachi na mesa de debate hoje, todos são iguais e todos são distintos. Emprestando uma idéia do Ézio: essa aldeia celebra a vida; e acrescento: que ela celebra os encontros que celebram a vida.
Quando a palhaceata percorre as ruas da cidade, esses encontros que já estavam ocorrendo dentro de sua aldeia de palhaços, com as várias aldeias de cada um que estava ali, provocam outros encontros com um quantidade enorme de outras aldeias.
Parece apenas dois grupos: por parte do público são palhaços, por parte desse o outro é público. Mas, na realidade o que ocorre são micro-encontros de iguais e diferentes, cada um com a sua singularidade. Isso tudo pode provocar coisas boas ou ruins, para mim é um momento de lembrança, único e rico.
Viva a palhaceata. Que venham muitas e muitas por aí.

Erminia Silva

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma ode ao palhaço terceiromundista

Chacovachi atravessa o cotidiano urbano com um tiro. Depois de sua passagem nada mais se consegue ser o mesmo que se era. O pipoqueiro, o bêbado que vende biscoito globo no Rio de Janeiro, o travesti que recebe dele um beijo em Campinas, e até aqueles que já o assistiram mais de dez vezes como eu, se transcendem de si mesmos. A cada passagem sua, minha percepção de mundo é redimensionada. Ele é político em cada ato sem precisar, no entanto, anunciar que o está sendo. Ele é o que o senso comum chama de politicamente incorreto, sendo politicamente transformador.

Ele ressignifica nossa ética, problematizando nossas instâncias morais. Chaco nos mostra que uma criança não é um bibelô dos adultos. Ele se relaciona com elas de igual para igual. Somente alguém que aceita sem pudores a sua condição humana, pode entender a simples complexidade de uma criança. Criança essa que ouve desse palhaço a realidade nua e crua sem nenhuma adaptação para uma linguagem “infantil”. Ou para uma linguagem que entendemos “infantil”. Chaco conhece a perversidade polimorfa da criança, porque também ele, é uma criança perversa e polimorfa em cena. Mas que, no entanto, nos encanta a todos ao fazer uma criança usar o seu poder sem aniquilar a pureza. E isso não é somente uma metáfora. Chacovachi vai muito além das metáforas. Ele sabe que a arte não pode se limitar a elas. A arte não alegoriza. A arte é. E sendo, intervém na realidade, cria a realidade. Chacovachi é em si, uma potência intervenção em nossas percepções. Um acontecimento, um “trauma”, difícil de ser esquecido.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Domingo no Parque!

Que rodão!!!Cheguei no Aterro por volta das 11:15 hs. Uma multidão se aglomerava em frente ao Castelinho, anexando, de fundo, o ônibus dos Irmãos Saúde. Moitará, Jesus Dias, Esio, Maku...artistas aguardavam o início do show. A criançada largada no chão ,amigos, palhaços diversos atuando, público de fim de semana num dos mais belos cenários do Rio de Janeiro. E lá estava o Chacovachi. SEM OS DREAD-LOCKS!!! Transparecendo total tranqüilidade, mesmo considerando o fato de que alguns objetos não se encontravam disponíveis àquela altura, o argentino arrumava os últimos detalhes de, certamente, um dos melhores shows de rua do Planeta. É isso mesmo! O Chaco detém uma das mais belas obras “callereras” que existem, explorando incrivelmente os acasos que a rua presenteia, exaltando poesia, interatividade e estratégia com adultos e crianças muito pequenas. Expondo sua filosofia de palhaço e prendendo o público até o último momento, ele impressiona a todos, ainda que muitos não compreendam maioria de seus “chistes”verbais , em espanhol.
Não me recordo quantas vezes assisti seu espetáculo, mas acho que esta foi das melhores. Ao lado de meu amigo Márcio “Dubar”, o Libar, presenciei,mais uma vez, a incrível performance do artista Chacovachi, que chegou ao nível de embaraçar, até mesmo, a equipe de suporte do evento. Que rodão!!!

WWW para Freedom

Sábado assisti o espetáculo de Ésio Magalhães, do Barracão Teatro, WWW para Freedom.
Chama atenção a composição do palhaço de Ésio, mais atoral, que abusa da fala para construir uma criança doce e aventureira. Pouquíssimos palhaços conseguem falar sem serem redundantes, já que geralmente o gesto e a expressão dão conta do recado. Ésio lança mão deste recurso com maestria, fazendo dele parte essencial em sua composição.

O espetáculo começa com o personagem na infância chamando para brincadeira Willie, seu amigo invisível. Ele usa uma roupa típica de colégios tradicionais católicos, uma túnica que se assemelha a de um coroinha. Começa o hino que o interrompe, numa gag musical: sempre que a música parece ter acabado ele tenta retomar a brincadeira e logo a música volta acelerada. Ésio aproveita os tempos da música, fazendo comentários à Willie de forma ritmada. Muito divertido esse momento, Ésio ganha o público de saída. Logo depois entra um heavy metal, estoura uma bombinha na coxia e o personagem aparece vestido para a guerra. Ele reencontra Willie, deixando em suspenso a possível leitura daquilo se tratar de um desdobramento da brincadeira de criança. Diferente do caráter episódico dos espetáculos mais clássicos, WWW para Freddom possui um argumento, um fio condutor muito bem delineado. São dois momentos de um personagem, na infância e na guerra. Mistura pesada se pensarmos na dimensão política dessa combinação.

Pensando no amigo invisível, Willie, entrevi um paralelo com Dias Felizes do Beckett. Na obra do irlandês, os personagens Winnie e Willie estão literalmente afundando na terra (ou num deserto, enfim, o que soar mais poético). Enquanto evoca fragmentos de memória, Winnie tem necessidade de um ouvinte que confirme sua existência passada, apesar das escassas e monossilábicas respostas de Willie, que fica quase toda a peça camuflado atrás de um monte de areia. Através de refúgios no discurso, na imaginação e nos objetos, Winnie projeta uma vida feliz que contrasta com a sua real situação. Assim passam os dias e o fim se aproxima, tal como na guerra. Os múltiplos paralelos entre Beckett e o universo da palhaçaria são antigos, a relação de branco e augusto é um dos aspectos recorrentes em sua obra.

Pois então Willie, no caso do Beckett e do Ésio, precisa existir em sua materialidade para funcionar. Mesmo monossilábica e camuflada, sua presença é capaz de legitimar a existência e o discurso. Nesse ponto concordo com a Adriana. Willie trai o jogo por não existir aos nossos olhos. O público pode ser Willie sim!

Por outro lado, a importância de Willie do ponto de vista dramatúrgico é irrepreensível. Se a atenção dispensada ao amigo invisível fosse menor, talvez o espetáculo pudesse ganhar ainda mais potência, equalizando melhor a dramaturgia e a espontaneidade do palhaço.

Ésio domina a relação com os objetos e com o público de maneira única, aproveitando cada minúcia, talvez por isso o espectador fique com ciúme de Willie.
Queremos exclusividade!


Brunella Provvidente